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Balé Nacional da China traz ao País 'Lanternas Vermelhas'

Versão dançada do famoso filme de Zhang Yimou em coreografia também dirigida por ele

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S. Paulo

10 de novembro de 2010 | 06h00

Lanternas Vermelhas não é o primeiro filme de Zhang Yimou. Antes disso, o diretor chinês já havia assinado produções contundentes como Sorgo Vermelho e Amor e Sedução. Mas foi com a história das quatro esposas de um senhor feudal que Yimou conquistaria fama e projeção internacionais. O longa de 1991 arrebatou o mundo por seu apuro visual. Rendeu ao cineasta o Leão de Prata do Festival de Veneza, uma indicação ao Oscar e, sobretudo, escancarou-lhe as portas do Ocidente.

O que a coreografia Lanternas Vermelhas tenta fazer pelo Balé Nacional da China não é muito diferente. Depois de passar por Porto Alegre e Curitiba, o grupo aporta hoje em São Paulo, no Teatro Bradesco, trazendo uma versão dançada do filme. Criado pelo próprio cineasta, o espetáculo estreou em 2001 e, desde então, ajuda a popularizar a mais antiga e tradicional companhia de dança da China. Já foi visto nos Estados Unidos, Europa, e agora faz sua primeira turnê pela América do Sul.

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Não por acaso o Balé Nacional da China aposta em Lanternas Vermelhas em sua jornada por reconhecimento no exterior. Antes perseguido pelo sistema, Zhang Yimou ascendeu à categoria de "queridinho" do governo chinês. Basta lembrar que foi escolhido para compor a cerimônia de abertura da Olimpíada de Pequim, em 2008. Além disso, o balé tem, de fato, todos os ingredientes para cair no gosto das plateias ocidentais. Com coreografia de Xin Peng Wang, um chinês que vive na Alemanha, e música de Qigang Chen, um afamado compositor sino-francês, Yimou construiu um trabalho que mescla tradições e referências dos dois continentes. No palco, é possível ver muito da milenar Ópera de Pequim, mas também da técnica russa do balé do século 19, que pauta toda a movimentação dos bailarinos.

Um pas-de-deux, entre um ator da Ópera e uma bailarina na ponta dos pés, é justamente a imagem na qual Zhang Yimou diz ter se inspirado para conceber toda a montagem. "Na criação dessa obra, minha fórmula foi a de somar 1+1, o que significa combinar o balé ocidental e a cultura chinesa. Acho que é uma maneira interessante, já que neste mundo globalizado todos estão conectados, de uma maneira ou de outra." Diretora-geral da companhia, Feng Ying faz coro às posições do cineasta. "Durante muito tempo apostamos em balés clássicos. Agora, o caminho é combinar as tradições e mostrar a cultura da China."

Igual, mas diferente. Ainda que Yimou esteja à frente dessa versão coreografada de Lanternas Vermelhas, é bom que o espectador não vá ao teatro com a expectativa de encontrar transposta para o palco a mesma história que viu no cinema. "É claro que tive que simplificar", disse ele em entrevista sobre o espetáculo. "O que significou transformar um livro de roteiro em uma folha de papel." Na hora de escrever o libreto, o diretor optou por uma trama de outra tonalidade.

Desde seu lançamento, o longa impressionou pela delicadeza com que combinava um drama intimista às críticas à opressão feminina. O enredo dava conta da trajetória de Songlian, uma jovem que, após perder o pai, era obrigada a se tornar a quarta mulher de um senhor feudal. No bailado, o foco é outro. Aqui, a protagonista não é apenas uma esposa infeliz. No centro da trama, surge um amor impossível. Com direito a traições e rasgos de melodrama. O ritmo da montagem também deixa de lado a lentidão dos planos do filme para lembrar mais os sincopados musicais da Broadway, com muitas trocas de cenas e ares de superprodução.

Ao longo de sua carreira, Yimou tornou-se cada vez mais popular. Em filmes mais recentes, como O Clã das Adagas Voadoras, fica evidente esse percurso: é o caráter esteticista que se impõe, colando à sombra o que havia de realmente original em sua cinematografia. Talvez seja isso o que esse balé nos revela também. Um diretor que ainda impressiona, mas que parece ter sido tragado, obscurecido pela própria beleza de suas criações.

Companhia tenta se reinventar

O Balé Nacional da China é a mais antiga companhia de dança do país e única a ser mantida pelo Estado chinês. Foi criada em 1959 e surgiu com a missão de importar para a pátria de Mao Tsé-tung a tradição estrangeira do balé clássico. Em seus primeiros anos abraçou a missão de divulgar para as plateias locais os grandes balés românticos da tradição ocidental, como O Lago dos Cisnes. E, durante a Revolução Cultural, serviu muitas vezes de vitrine à causa comunista.

Não é pequeno o status de ser uma companhia estatal na China. O governo subvenciona apenas dez instituições culturais, entre elas a aclamada Ópera de Pequim, que já construiu uma sólida reputação internacional. "Mas nós ainda estamos muito longe de ter o prestígio que os atletas têm na China, por exemplo", pontua Peter Shi, diretor assistente do grupo.

Diretora-geral da companhia, Feng Ying é uma bailarina que começou dançando na Academia de Pequim aos 11 anos e desde 2004 ascendeu ao posto máximo da companhia.

Esta será a estreia do grupo na América do Sul, que traz na bagagem dois programas diferentes: São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Curitiba assistem a Lanternas Vermelhas. Já em Porto Alegre e Brasília, o público irá acompanhar um pot-pourri de trabalhos do grupo: o clássico Giselle, e as peças New Year’s Sacrifice e Yellow River, duas criações de coreógrafos chineses.

Balé Nacional da China

Teatro Bradesco. Rua Turiaçu, 2.100, tel. 3670-4100, Bourbon Shopping. 4ª a sáb., 21 h; dom.,  20 h. R$ 60/R$ 300.

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