Balé mostra tirania do som sobre o corpo

Os paulistanos têm a oportunidade de ver - terça e quarta-feira, no Teatro Sesc Anchieta - a coreografia Ódio pela Música, do suíço Philippe Saire. O espetáculo participou do 34.º Festival Internacional de Londrina o Filo 2001, nesse fim de semana. O que inspirou Saire foi uma viagem ao Brasil em 1998, que o deixou impressionado com o excesso de ruídos e a música de má qualidade que invadia espaços públicos e privados. A leitura do livro Ódio pela Música, de Pascal Guignard, reforçou o desejo de explorar o tema. Um telão, dois televisores pendurados nas laterais, onze bailarinos e um músico é o que Saire coloca no palco para investigar a tirania do som sobre o corpo. "Um/dois/três/quatro/cinco/seis" repete um bailarino várias vezes para seus pares num momento do espetáculo. Dança e música podem, afinal, ficar reduzidos à matemática, ao adestramento. Na primeira cena, uma brincadeira com o karaokê. Os bailarinos Manuel Chabanis e Anne Delahaye entram no palco em silêncio, acionam um controle remoto e "interpretam" os versos banais mostrados no telão. Anne ainda realiza uma das muitas variações daquelas coreografias "sensuais" dançadas pelas nossas "loiras" de todas as cores e imitadas até por crianças. Um terceiro bailarino entra, pega o controle remoto, mas desiste de acioná-lo. E começa a dançar em silêncio, tentando criar movimentos próprios. Aparecem outros que o acompanham nessas descobertas. Subitamente, entra a música e começa uma coreografia de conjunto que aproveita a criação individual dos bailarinos. A música pára. Perplexos, os bailarinos parecem não saber mais o que fazer do próprio corpo. O que era um conjunto, percebe-se agora, são individuos atônitos, que parecem olhar uns aos outros pela primeira vez. Todos com a respiração ofegante, depois do esforço contra o corpo. Saire cria seu espetáculo sobre essa tensão constante. Parece dizer que é necessário voltar sempre a escutar o corpo, para recuperar a dança que é pura pulsação. Há um momento em que um bailarino controla os movimentos de outro, acionando um controle remoto. Por que o segundo permite? O motivo aparece numa brincadeira em que ambos falam com a platéia - a busca pela aceitação. Talvez faltem ao espetáculo coreografias mais sofisticadas a partir da respiração ou dos batimentos cardíacos dos bailarinos. Mas vale ser visto pela reflexão que propicia. A estréia de Ódio pela Música foi seguida pelo show de Naná Vasconcelos. Este sim, mostrou com todo o requinte, como pode ser encantador "ouvir" os sons do Brasil. Inesquecível o momento em que "regeu" o público na reprodução do barulho da chuva sobre o rio Amazonas.

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