Balé Guaíra traz de volta o "Circo Místico"

Respeitável público, um minuto deatenção: o Grande Circo Místico volta aos palcos. Depois de20 anos, os artistas do Balé do Teatro Guaíra reapresentam acoreografia criada por Luis Arrieta e Dani Lima, ao som daconhecida trilha de Edu Lobo e Chico Buarque. O espetáculo ganhaliteralmente roupa nova: figurinos e cenários estão a cargo dacarnavalesca Rosa Magalhães. A trupe estréia turnê nacional nomês que vem em Curitiba (de 13 a 16) e depois parte para SãoPaulo (de 21 a 23). Edu Lobo criou arranjos instrumentais para a atualversão. "Edu deu liga à trilha do espetáculo. Antes, as cançõesapareciam como em um disco, agora ele consolidou a leitura daobra", diz a diretora do balé, Suzana Braga. O compositorexplica: "Quando estávamos criando, nos anos 80, para cada tematratado havia uma versão instrumental. As 12 músicas eramdesconhecidas do público, a idéia era reforçar essas melodias.Revendo todo o trabalho, principalmente os instrumentais,resolvi fazer algumas substituições." Foram poucas as alterações. As canções da gravaçãooriginal serão mantidas, com algumas trocas de intérpretes: ABela e a Fera ganha versão do ator Marco Nanini (antes TimMaia) e História de Lili Brown será ouvida na voz de VanessaGerbelli (antes Gal Costa). "Vendo o ensaio, tive vontade demodificar algumas coisas." "O disco não foi campeão de vendas, até mesmo demorou apegar", fala Edu Lobo. "Melodias como Beatriz ficaramconhecidas ninguém sabe como; não eram canções de rádio." Eleconta que certa vez estava em uma festa, quando um profissionalde rádio desculpou-se por não tocar a trilha do Circo."Perguntei por que, ele me respondeu que não havia refrão. Naverdade não tem, até então nunca tinha me dado conta disso. Hojesão canções conhecidas, não diria popularmente, mas por aquelesque acompanham MPB." Se as canções são as mesmas, a coreografia segue ocaminho inverso: foi criado um novo trabalho cênico assinadopelo argentino, radicado no Brasil há mais de 30 anos, LuisArrieta. A montagem deixou a linguagem acadêmica e voltou-separa um trabalho mais moderno. Para Suzana, ele se transformouem um "diretorzão" que soube traduzir música e poesia para adança. "Arrieta faz a ponte entre a linguagem clássica emoderna. Coube a ele segurar o ritmo de um balé narrativo de100 minutos. Não daria para realizar algo rasgadamente moderno, uma vezque a música não permitiria." Edu Lobo compara a primeira versão com a atual: "No quediz respeito à parte coreográfica, é outro espetáculo. Arrietacria em cima da pulsação da música, o que sempre é positivoquando há combinação entre acentuação rítmica e movimentos." Dani Lima, uma das fundadoras da Intrépida Trupe,assinou as coreografias aéreas e o roteiro circense. "As idéiasprincipais vieram do Arrieta, lidei com a parte de acrobacias,mas não abri mão de colocar Beatriz no alto", brinca. Ela deuum ar jovial e arrojado ao Circo, que mantém o imaginário earquétipos circenses de outros tempos. A inspiração para o musical veio de longe, de Viena, dapaixão de uma acrobata por um estudante de medicina. O amor deFrédéric Knie deu início a uma dinastia circense, que fincouraízes em 1806 quando Knie e seus filhos criaram o Circo Knie.Em 1919, seus descendentes fundaram o Circo Nacional Suíço. Hojea trupe está na sexta geração. Com sensibilidade, o poeta alagoano Jorge de Limatraduziu essa saga para o poema O Grande Circo Místico, quenarra parte da trajetória dos Knies. Nessa obra há uma certaLily Braun, vedete que tinha um santo tatuado no ventre. Suafilha, a domadora Margarete, quer mudar de vida, quis ir para oconvento, mas foi obrigada a seguir no circo. Em protesto,tatuou no corpo a via-sacra. Foi estuprada e teve duas meninas,almas puras que levitavam. É onde entram o misticismo e ofantástico. Sob o impacto dessa narrativa, o dramaturgo Naum Alvesde Souza elaborou um roteiro, em 1982, seguido fielmente porArrieta e Mario Zanatta. "O Grande Circo Místico é umtrabalho de que eu gosto muito. Surgiu das idéias de Naum, queroteirizou todo o poema, deu partida ao processo, dirigiu otrabalho musical", lembra Edu Lobo. O projeto, da Arte ComTrato, governo do Paraná e Fundação Teatro Guaíra, com apoio daDell´Arte Produções, está orçado em R$ 1,2 milhão, compatrocínio da Embratel e Copel.

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