Balé Folclórico da Bahia sacode Joinville

O Balé Folclórico da Bahia que se apresenta hoje no 18.º Festival de Dança de Joinville, em Santa Catarina, vive aquela situação insólita, porém tipicamente brasileira. A companhia, que existe há 12 anos é conhecidíssima e respeitada no exterior e relegada por aqui. Desde 94 ostenta o título de melhor grupo de dança folclórica do mundo, um título muito difícil de sustentar sem patrocínio, segundo seu fundador e diretor Walson Botelho, mais conhecido como Vavá. Sua agenda fora do País está lotada de compromissos até 2003. Aqui, nada.Sorte do público de Joinville, que hoje vai arrastar a sapatilha no novo espetáculo de samba-reggae criado para finalizar a apresentação. Bahia de Todas as Cores é o nome das sete coreografias que compõem o show: dança de origem, puxado de rede, maculelê, ramba de roda, capoeira, afixirê (que significa dança da alegria em iorubá) e samba-reggae. As duas últimas são novas.Vavá explica que afixirê é um resumo da influência africana sobre a cultura brasileira e para criá-la fez um apanhado das danças do Senegal, Congo, Benin, Angola, mantendo a característica fundamental do grupo que é dar uma roupagem nova ao folclore.Já o samba-reggae segue o rumo do popular e incorpora as danças criadas na Bahia pelo Olodum, Timbalada, entre outros que ditam a moda do carnaval do País inteiro. Neste momento os homens tocam e as mulheres dançam. "Todos os dançarinos são tradicionalmente músicos e capoeiristas", conta Vavá. A música, a percussão vem de uma tradição familiar e a dança é uma conseqüência da capoeira que eles praticavam desde crianças", diz. Assim Vavá quer fazer as platéias do mundo cairem na folia. "A idéia é sair para a rua dançando, como aconteceu em Lyon, na França há 15 dias, com um público de quase 4 mil pessoas". O balé baiano foi o único convidado, entre todas as grandes companhias do mundo para a festa de comemoração dos 20 anos da Maison de la Dance, que ficou fechada um ano para reformas. Em vez de três espetáculos fizeram oito. Foi lá, durante a Bienal de Lyon de 1994, com a coreografia Mama África que eles despontaram para o mundo, viraram capa do The New York Times, onde já saíram outras cinco vezes. De 95 pra cá já se apresentaram em 109 cidades nos Estados Unidos e vão para mais 49 este ano. Já viajaram por toda Europa, Austrália e Caribe e percorreram 40 cidades na França.Em Lyon, o sucesso de 94 foi tanto que inspiraram o tema da bienal de 96 Aquarela do Brasil e tiveram o maior público da história da bienal. "Os 20 grupos que foram para lá estão com patrocínio e nós não", lamenta Vavá. O problema, segundo ele é que a falta de patrocínio os obriga a viver das turnês pelo exterior. O grupo mantém duas companhias de 18 bailarinos cada que trabalham oito horas por dia de segunda a sábado com balé clássico, moderno e dança afro. Uma viaja e outra faz apresentações diárias gratuitas, sempre às 20h, no Teatro Miguel Santana, no Pelourinho. Para isso eles recebem apoio da Secretaria de Cultura da Bahia. Vivem disso e das apresentações no exterior."O ano passado paramos para prepararmos novos trabalhos e para viver um pouco na Bahia, estávamos há cinco anos viajando e estávamos ficando desatualizados", diz Vavá. "Mas tive de gastar todas as nossas reservas para manter os quase 80 funcionários do grupo". Ele diz não culpar os empresários que não querem investir, porque muitos nem conhecem a companhia e que agora ele quer "mostrar nossa cara por aqui e festivais como este são importantes para nós". "O primeiro espetáculo do balé foi feito aqui antes mesmo de ser uma companhia. Quinze dias depois da nossa apresentação é que formei o grupo de fato", lembra Vavá.

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