Balé de Paris traz 300 anos de história

O Balé da Ópera de Paris é a maistradicional companhia de dança do mundo, fundada em 1669 por Luis 14, o"Rei Sol". O peso de mais de 400 anos de história cai sobre ocorpo de baile e suas étoiles, que nos ensaios repetemexaustivamente cada movimento, sob os olhares atentos dosexigentes maîtres de balé. Corpos esguios e suados ocupam porhoras as salas de ensaio do suntuoso Palais Garnier, onde obrasclássicas do repertório convivem com coreografias de Mats Ek ePina Bausch. Tradição e renovação convivem juntas e poderão sercomprovadas a partir de sábado no Teatro Municipal, em SãoPaulo, com a apresentação do clássico dos clássicos Giselle,de Jules Perrot, e Jewels, de George Balanchine. Giselle é um dos balés mais conhecidosdo mundo e, de acordo com a diretora artística da companhia,Brigitte Lefevre, um dos que possuem as mais diferentes versões.Como a coreografia foi concebida por Jean Coralli e Jules Perrotpara uma bailarina chamada Carlota Grisi, no próprio balé, nãofoi díficil para o ensaiador, Patrice Bart, reconstituir apartitura original. "Esse balé circulou por diferentes países,da Rússia à Inglaterra, todos pensam que possuem a primeiraversão, mas quando você dança ou dirige diferentes grupospercebe que ninguém a tem, de fato", diz Bart. Após algumaspesquisas no arquivo, o artista pôde remontar a peça. Durante os ensaios, Bart é rigoroso quanto aos gestos,mas delicado nas palavras. "Giselle é feito unicamente dedetalhes, cada personagem deve ser esculpido, para não cair novazio e perder suas sutilezas." O ensaiador aposta no talentode cada intérprete. "Os bailarinos dão cores diferentes, quenão podem vir apenas dos figurinos, mas da força dainterpretação. Cada um deve exprimir seus sentimentos no palco,o que faz com que cada apresentação de Giselle seja algoespecial." Bart fala com a experiência de quem foi étoile,interpretou o príncipe Albrecht e trabalhou ao lado de RudolfNureyev, quando este assumiu a direção da Ópera. A coreografia romântica trata do amor impossível entreuma camponesa e um jovem nobre. A moça enlouquece ao descobrirque estava sendo enganada pelo príncipe. Um momento de impacto,emocionante e passional que envolve a platéia e a prepara para abeleza do segundo ato, o balé branco, quando as willies roubam acena. Willies são espíritos de noivas abandonadas, que se unemem vigança aos noivos. Continuar a apresentar Giselle é uma proeza. Osegredo, segundo Bart, está em aproximar-se da tradição semperder o vigor da juventude. Para outra ensaiadora, GhislaineThesmar, um dos aspectos mais complexos é dar a idéia de comorealizar o espetáculo. "Os jovens de hoje possuem umainteligência ´horrível´, o que dificulta a transmissão de cenasque envolvem a ingenuidade - eles não são mais assim. Essageração é muito influenciada pelo audiovisual, adquiriram umavisão aguçada, vivem mais no mundo virtual, de imagens, ondetudo é perfeito e preciso, o que dá grandes resultados nosegundo ato." Programa - Para mostrar a versatilidade do corpo debaile francês, Jewels, de George Balachine. O coreógraforusso, radicado nos Estados Unidos, inspirou-se em suas visitasque fazia à joalheria Van Cleef na 5.ª Avenida, em Nova York.Fascinado pelas pedras, decidiu retratar as diferentes faces dadança clássica em uma coreografia que faz menção ao estilofrancês, russo e americano. "Balachine exprime a importância dobalé, mostra como o clássico é múltiplo; parece algo sempreigual, mas cada escola possui características peculiares epresta uma homenagem aos músicos", afirma Brigitte. A coreografia será exibida pela primeira vez fora daFrança. Todos os ensaios foram acompanhados de perto porprofissionais ligadas ao Trust Balanchine. Conhecidas peloscorredores como as viúvas de Balanchine, coube a elas mantertodos os detalhes com fidelidade, inclusive o figurino, aooriginal. As roupas foram desenhadas por Christian Lacroix em1967. Jewels está dividido em três etapas. "Esmeraldas", aosom de Gabriel Fauré, evoca a França, o berço da dançaromântica. A amizade entre o compositor russo Igor Stravinski eo coreógrafo fez nascer "Rubis". A composição, com acentos de jazz, transformou-se em uma coreografia que destaca, ao extremo, asposições do estilo de dança jazz, com clima bem nova-iorquino. Já o balé do teatro de Mayrinski, na Rússia, érepresentado com toda a pompa em "Diamantes". Balanchine destacatodos os maneirismos russos. "´Diamantes´ possui estilo de grandenobreza, quase um cerimonial, com protocolo demorado, queressalta o universo feminino, como nos balés russos. Balanchine,em boa parte de suas criações, foi um excelente elaboradorcênico, e suas obras são marcadamente sensuais", diz aensaiadora Ghislaine. Companhia - O Balé da Ópera de Paris possui a agendalotada, faz cerca de 150 apresentações por ano, em seus doisteatros, Palais Garnier e Teatro da Bastilha. São realizadas 16montagens por ano, números invejáveis que só permitem uma viagema cada temporada - duas turnês internacionais por ano. A vindaao Brasil estava marcada havia três anos. A companhia conta com 154 bailarinos, uma estrutura caramantida pelo Ministério da Cultura francês, que libera 90milhões de euros por ano somados a uma média de 58 milhões,receita própria, de bilheteria. As cifras somam-se ao respeito aum estatuto, que define as regras para a companhia, na prática -mudanças de governo não alteram a programação nem a estrutura dogrupo. Assim como o Kirov e o Bolshoi, boa parte dos bailarinosé formada sob a disciplina da escola. Desde tenra idade, meninose meninas aprendem a respeitar hierarquia e sonham em serétoiles. Estrelas, bailarinos carismáticos, que se destacam emdiferentes papéis, estão à frente no palco e ganham o título deembaixadores do Balé. Uma étoile deve ter boa formação, sererudita. "Ela não deve sair em revistas de fofocas, porexemplo. Um bailarino precisa conhecer sua profissão, terconsciência da qualidade, não da imagem", explica Brigitte. De acordo com a diretora artística, as étoiles atraemcoreógrafos para a companhia. Uma marca dessa direção está narenovação. Coreógrafos de diferentes formações são convidados acoreografar para a companhia. Nomes de diferentes tendências eestilos mostram a versatilidade dos bailarinos.Serviço - Balé da Ópera de Paris. Sábado, às 21 horas; domingo,às 16 e às 21 horas (apresentação do espetáculo Giselle);terça e quarta, às 21 horas (apresentação do espetáculo Jewels). De R$ 50,00 a R$ 300,00. TeatroMunicipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, São Paulo, tel.222-8698. Até 26/6

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