Balé de Leipzig, sem limites

Grupo alemão faz, no Municipal, rara apresentação fora de sua sede

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2011 | 03h07

Uma obra inacabada de Mozart. Eis o ponto de partida de A Grande Missa, coreografia que o Balé de Leipzig leva, de hoje a sábado, ao palco do Teatro Municipal. A partitura sacra que o compositor austríaco deixou inconclusa motivou o coreógrafo Uwe Sholz a conceber a peça. Diretor artístico do conjunto entre 1991 e 2004, Sholz tratou, inicialmente, de cobrir as lacunas que havia na música original: A Missa em Dó Menor, K.427. Buscou, para tanto, composições já existentes: criações de Thomas Zahn, György Kurtág e Arvo Pärt, além de versos de Paul Cellan. Depois, foi a hora de conceber a encenação: transformar o que era uma celebração de cunho evidentemente religioso em uma reflexão sobre opostos. "Sobre o sagrado, mas também sobre o humano", lembra a bailarina Isis Calil de Albuquerque, única brasileira do Balé e uma das solistas da breve temporada no Municipal.

Integrante da Ópera de Leipzig - uma das casas de música mais antigas da Europa, fundada em 1693 -, a companhia de dança mantém a obra no repertório desde sua criação, em 1998. Para a parte composta por Mozart, o coreógrafo preferiu deter-se sobre cores claras. Bastante iluminada, essa parcela incorpora em sua própria estrutura elementos da liturgia da missa. Vale-se da sacralidade que o músico quis transmitir para criar também os movimentos. Gestos regidos por um sentimento de harmonia e de encontro com o divino. "É como se fosse, de fato, uma missa que foi traduzida no espaço. A própria música dita isso. Essa proximidade com a liturgia. É como se fosse uma oração", observa Isis.

A entremear essa coreografia de tom solar, surge um contraponto sombrio. Mais áspera, a música que complementa a partitura de Mozart motiva uma criação escura. O lugar que era legado ao sagrado torna-se uma sagração ao humano. Se as proposições mudam, a forma de mover também se altera. O acento neoclássico, que contaminava a parcela clara, ganha matizes mais contemporâneas. Movimentos bruscos ou demasiadamente lentos. Gestos mais pesados. Ações triviais como andar, correr ou brincar de dar voltas em torno de cadeiras.

A oscilação constante entre os dois registros - o neoclássico e o contemporâneo - não representa uma dificuldade para a companhia, assegura Isis. Quase todos os 38 bailarinos do grupo participam das duas partes. Aparecem nos números conjuntos, mas também em duos e solos.

Apesar do reconhecimento internacional, o Balé de Leipzig não circula com frequência para além da Alemanha. Precisa dar conta, dentro de casa, de um repertório de oito obras que ficam permanentemente em cartaz.

Na atual turnê pela América Latina, eles passam apenas por Bogotá e São Paulo. Aqui, porém, a coreografia deve perder parte do seu brilho natural. Concebida dentro de um centro musical, A Grande Missa costuma ser apresentada sob acompanhamento de uma orquestra, um coral de crianças, além de quatro cantores solistas. No Municipal, o público terá que se contentar em ouvir a trilha de Mozart gravada.

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