Balé de Frankfurt ameaçado de fechar

Quem ainda pensa que absurdos em política cultural são exclusivos dos países pobres, deve se surpreender com a notícia. Mas mesmo os que sabem que os problemas nessa área se espalham por toda a parte devem se chocar com a mais recente ameaça. Na terça-feira, William Forsythe, diretor do Ballet de Frankfurt desde 1984, mandou um e-mail para seus amigos pedindo ajuda e com toda a urgência possível. O texto do e-mail é o seguinte: "Amigos, os políticos da cidade de Frankfurt pretendem fechar o Ballet de Frankfurt. Desejam montagens de balés de repertório tradicional. Estou tão atônito que não sei o que pensar ou sentir. Por favor, espalhem a notícia pelo mundo todo e, por favor, peçam às pessoas para enviarem cartas para Frau Petra Roth, a prefeita da cidade de Frankfurt, no fax 49 69 212 37 177 ou pelo endereço www.sign.de/forsythe. É muito importante. Muito obrigado." É preciso respirar fundo e reler, pois pode parecer trote. Alguém decidiu destruir o mais importante trabalho já feito em balé depois de Balanchine? Que a mais importante companhia de balé da modernidade vá desaparecer para ser substituída por mais uma que se dedique a dançar os clássicos do século 19? Mas a ameaça existe e é mesmo essa: em vez de continuar a inventar o futuro, o Ballet de Frankfurt, de acordo com as autoridades locais, deve agora cimentar-se no passado. Forsythe nasceu em Nova York em 1949, dançou no Joffrey e no Stuttgart Ballet e começou a coreografar em 76. Foi quem nos ensinou a olhar para os 400 anos de história do balé com olhos capazes de vasculhar nela os insterstícios do seu futuro. Em 71, quando operou o joelho, ainda não existiam as microcirurgias de hoje. Precisou ficar oito semanas em repouso, tempo suficiente para descobrir a Space Harmony, de Rudolf Von Laban, o maior teórico alemão da dança do século 20. Daí em diante, passou a entender o corpo como um texto que não precisava de contexto. Começou a criar movimentos seriais mantendo certas posições de braços do balé, mas levando o velho modelo a ser reorganizado. Embrenhou-se tanto nos algoritmos que acabou por inventar um software para a dança. Com ele, mostrou como treinar pessoas a se moverem por um modelo que reorganiza o que já sabem de balé. Passou a produzir séries de movimento não puramente clássicos, mas que continuam sendo inteiramente balé. Parece balé desengonçado, como se tudo estivesse fora do eixo. Forsythe inventou algo tão único que ficou patenteado: seu nome deixou de ser próprio e passou a identificar um modo de fazer balé. As pessoas que "viram Forsythe" querem dizer que assistiram a uma obra marcada por quebras e angulosidades, jogos de velocidade e instabilidade, uso de partes isoladas do corpo, rompimento radical com os vellhos padrões de causa e efeito do balé clássico, tudo sempre em deslocamento. Em Nova York, no BAM, em setembro, logo depois da destruição das duas Torres Gêmeas, Forsythe deu uma palestra, durante a temporada de sua companhia por lá. Evidentemente, os ingressos estavam esgotados havia meses. "Dançar é uma forma de pensar. É uma forma de inscrição, tal como escrever, desenhar, como cortar, embrulhar ou rasgar... Para observar uma dança, você precisa aprender a lê-la. Porque o que se tem são formas materializadas que se manifestam na mente dos bailarinos de acordo com as coisas que eles conhecem. Eles selecionam coisas que conhecem e tentam reescrevê-las... Você pode compreender as coisas como compostas por elementos abstratos. Olho para um cachimbo e digo que são quatro coisas: dois círculos e duas linhas... A origem do movimento não é importante porque é a visão do intérprete, a sua habilidade em manifestar o que estava lá para ele, no momento da inscrição, algo que era antes de instensa imaterialidade..." E a sua declaração mais bombástica: "O balé é uma ficção." Uma mente brilhante, um daqueles poucos criadores que merecem o título de inventores. Forsythe mudou tudo no balé. Nos ensinou que não era preciso abandoná-lo para fazer a contemporaneidade nascer.

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