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Balé das baleias

O porto de Marselha é o mais importante da França, e seu movimento incessante mantém as baleias longe. Ou mantinha.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2020 | 03h00

“Em compensação” não pode ser o começo de nenhuma frase sobre a pandemia que nos assola. Nada compensa, mitiga, inocenta, redime, atenua, suaviza ou absolve o vírus assassino, por respeito aos que ele já matou e continua matando. Portanto não veja como simpatia pelo demônio a simples constatação, noticiada pela imprensa internacional, que um efeito da pandemia e das medidas tomadas para controlá-la tem sido a queda dos índices da poluição em todo o planeta. Triste ironia: o ar se torna respirável pela diminuição da atividade industrial e a ausência de gente nas ruas justamente onde ele é mais venenoso. O demônio tem suas astúcias.

Li que os habitantes de Marselha, no sul da França, estão vendo, diariamente, um espetáculo raro. Baleias se aproximam da costa e se exibem, certamente surpreendidas pela sua própria súbita ascensão ao estrelato. O porto de Marselha é o mais importante da França, e seu movimento incessante mantém as baleias longe. Ou mantinha. Com as limitações impostas pelo coronavírus, abriu-se o espaço para o balé das baleias, que não demora estarão integradas na vida social de Marselha, provando a “bouillabaisse” do Vieux Port e dando autógrafos.

Perdão pela brincadeira, admissível num cronista inconsequente que só está tentando não sucumbir ao terror destes tempos – o equivalente literário a assoviar no escuro – mas inaceitável no humor involuntário e trágico com que o governo mais incompetente da nossa história vem tratando do assunto coronavírus, transformando o que pode significar a vida ou a morte para milhares de pessoas numa mesquinha briga de egos. Os heróis que estão na linha de frente da guerra contra o vírus, nos hospitais, arriscando sua vida pela vida dos outros, merecem, mais do que ninguém, outro governo. Nós todos merecemos outro governo. Até quem elegeu este governo, por convicção ou engano, merece um governo menos inconscientemente cômico. 

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