Balé da Cidade se apresenta no Teatro Municipal

É como se Mário Nascimento tivesse escrito um ensaio maduro, onde apresenta argumentos consistentes - um tipo de texto ao qual só se chega depois de vários outros, em muitos anos de percurso. Onde Está o Norte? é a sua segunda criação para a Cia. 1 do Balé da Cidade de São Paulo (a primeira foi Constanze, estreada em abril). Nela, continua acompanhado pelo talentoso músico Fabio Cardia, parceiro de boa parte dessa trajetória, e responde duplamente ao que pergunta. Não somente deixa claro para onde direciona a sua capacidade coreográfica, como também indica uma metodologia de funcionamento para o próprio Balé da Cidade. Se o seu convívio mais prolongado com o elenco (4 meses) marcou uma diferença tão profunda como a do desempenho do elenco em Onde Está o Norte?, quem sabe convites futuros a outros coreógrafos possam seguir nessa mesma direção.É visível que os 29 bailarinos da Cia. 1 começaram a conquistar outro entendimento sobre o que seja virtuosismo e competência em dança. O tipo de material trazido parece ter desmontado um pouco a tendência à pasteurização que grassava, e o saldo é entusiasmante. O fato de não haver soterrado as singularidades debaixo de um mesmo polimento, fazendo arejar o que habitualmente se entende como limpeza da coreografia, abriu um novo terreno. Evidentemente, esse tipo de proposta leva tempo para se naturalizar nos corpos de todos, mas o saldo atual já é promissor.A obra começa com os bailarinos perambulando junto ao público que chega. Boa proposta, mas com desempenho irregular. Alguns conseguem a naturalidade necessária para se misturar e surpreender, mas outros expõem aquela intensidade excessiva (e sempre denunciatória de mal preparo) nos olhares e posturas.No palco cru, despido das proteções habituais da caixa preta do teatro italiano, os que circulavam pelo teatro vão ao encontro dos que lá estão. Instaura-se um jogo entre quem faz e quem observa que vai alinhavar a obra. Rapidamente se descobre um mecanismo que monta, desmonta e remonta as frases coreográficas. Corpos que se precisam para não cair e para fazer cair ou para levantar do chão; que se precisam para trombar, para um continuar o movimento do outro, para interrompê-lo, para dificultá-lo, para colaborar.A principal marca de Onde Está o Norte? está na sua habilidade em tratar todos os conjuntos como multidão (no sentido de Toni Negri, o filósofo político italiano que escreveu Império e Multidão, entre outros livros) e não como massa. São conjuntos de singularidades reunidas, que não dependem de trechos coreográficos individuais para preservar-se. O mesmo vocabulário pode ser compartilhado pois, a cada vez que reaparece em um corpo, vai deixando claro que o que está em jogo é o fato de a arquitetura da composição estar sendo construída com o compartilhamento dos materiais coreográficos. É o vocabulário quem nos leva à arquitetura, é ele quem tece as direções e simultaneidades.Tivessem os figurinos conseguido evitar os pequenos deslizes de um ou outro modelito, e teriam podido colaborar mais ainda na construção dessa multidão. Idem se a iluminação privilegiasse os momentos de indistinção entre palco e platéia.O Balé da Cidade de São Paulo e Mário Nascimento perguntam Onde Está o Norte?, e, felizmente, já o encontraram. Balé da Cidade de São Paulo. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, Centro, tel. 3222-8698. Hoje e amanhã, às 21 h. R$ 10 a R$ 15

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.