Balé da Cidade estréia com veteranos

Como Se não Coubesse no Peito é o título da nova coreografia do Balé da Cidade de São Paulo que estréia na quinta-feira e fica em cartaz até segunda. As assinaturas do trabalho são da brasileira Denise Namura e do alemão Michael Bugdahn que, pela primeira vez, coreografam para uma companhia do País. Eles estão radicados na França há 15 anos e são os diretores da Cie. À Fleur de Peau. A participação dessa dupla faz parte da proposta da diretora do Balé, Mônica Mion, que está apostando em talentos e abrindo espaço para diversos coreógrafos. Quem assistiu à última temporada da companhia pôde comprovar essa tendência com as peças dos brasileiros Sandro Borelli, Jorge Garcia e Claudia Palma. Agora é a vez de Denise e Bugdhan falarem sobre o amor com os bailarinos da companhia 2 do Balé da Cidade.O namoro entre os coreógrafos e o Balé paulistano não é recente. "Essa história começou em 1999 quando alguns bailarinos dessa companhia fizeram workshops que eu vim coordenar no Sesc", diz Denise Namura. "No ano passado, fizemos mais aulas e agora conseguimos conciliar as agendas e criar uma peça."A coreografia segue a linguagem criada pela À Fleur de Peau, que faz a síntese entre a dança, o teatro e o circo. "Nosso trabalho pode ser classificado como uma dança teatralizada, todos os movimentos têm uma intenção", explica Bugdhan.Todos os projetos desenvolvidos pela companhia francesa abrem espaço para os bailarinos darem o seu toque pessoal ao personagem. O processo de criação de Denise e Bugdhan é bem característico. O primeiro passo é escolher o tema, que normalmente é algo amplo. "Em Como Se não Coubesse no Peito, o tema é o amor. A partir daí, cada bailarino contribui com a sua experiência", diz Denise. E Bugdhan completa: "De imediato pedimos aos artistas para escrever uma redação descrevendo aquilo que pensam sobre o amor e que respondessem a um questionário. Colhemos uma série de opiniões que estão sendo utilizadas na criação da coreografia." Alguns trechos dessas cartas serão lidos durante o espetáculo. A idéia é traduzir os textos para várias línguas, para que em outros países as pessoas possam entender.Já as cenas são feitas a partir de observações do cotidiano. Bugdhan organiza as sugestões que surgem durante esse processo de criação. "Cada um contribui com características próprias. As personalidades são diferentes e e isso fica bem claro no trabalho", conta Denise.As coreografias também são elaboradas com base nas músicas. "A trilha sonora que dá o tom da peça é composta por instrumentos de corda, valsas e músicas ciganas lentas, tudo muito calmo. O clima só é quebrado no fim, quando entra um som tecno que se assemelha às batidas do coração." Os movimentos vão surgindo de acordo com a música.Brincadeiras - Para unir todos esses elementos há uma boa dose de humor. "Nessa peça, especificamente, lidamos com o lado tragicômico do amor", revela Denise. Dos velhos chavões surgem brincadeiras. "Ele não pára de correr atrás de mim" - um personagem corre, literalmente, atrás de outro. Ou: "Três é demais", em que não há contato físico entre o elenco. Ou ainda: "Ele não larga do meu pé", quando um artista se arrasta, entre outros.As cenas são criadas como quadros e apresentadas ao público. "Nada é óbvio, sugerimos as situações e o público as compreende, não temos a intenção de dar tudo mastigado, a platéia percebe as situações pelos personagens", observa Denise. De acordo com os diretores, os artistas encenam as etapas do discurso amoroso, as confusões que são causadas pelo sentimento, a infelicidade de quem ama, a solidão, a dor da ausência, os desencontros. "A mensagem é poética, lidamos com as ironias do amor e ficamos no limite entre rir e chorar. Na realidade, todos os personagens são um só, porque o assunto é o mesmo e universal."Como auxílio para essa pesquisa, os diretores utilizaram o livro Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes. O texto, um clássico sobre o tema, também auxiliou na composição dos personagens. Os diretores utilizam, ainda, elementos da mímica e de representação teatral. A linguagem desenvolvida pela À Fleur de Peau possui aspectos do teatro, como o recurso da progressão dramática, o que é um desafio para esse grupo de artistas.Para compor este espetáculo, Denise e Bugdhan contaram com o apoio de Wagner Freire para fazer a iluminação, o cenário é de Giuliano Scandiuzzi e o estilista e ex-bailarino do Grupo Corpo, Geraldo Lima Júnior, assina dos figurinos.Veteranos - Em dezembro de 1999, o Balé da Cidade de São Paulo criou a sua companhia 2, reunindo bailarinos veteranos. Uma iniciativa interessante, primeiro porque garante um espaço para esses profissionais e segundo por estimular os coreógrafos a criar para esses intérpretes.Essa idéia veio importada da Holanda, mais especificamente do Nederlands Dans Theatre, de Jiri Kylián. Lá existe a companhia principal o NDT, o NDT 2 para os jovens e o NDT 3 para quem tem mais de 40 anos. O mais importante dessa estrutura é observar que essas pessoas não abandonaram a dança e continuam produzindo."Acho que a criação da companhia foi importante, mas não devemos esquecer que os jovens têm muito que a aprender com os veteranos e vice-versa. Não pode haver uma separação profunda entre os grupos", ressalta Mônica, diretora do Balé da Cidade. "Também estamos dando aulas para os integrantes da companhia-mãe", diz Denise.A produção atual, Como Se não Coubesse no Peito, também deverá ir para o Centro Cultural São Paulo em julho e ficará em cartaz por duas semanas. "Gostaria de trazer À Fleur de Peau ao Brasil para que as pessoas possam conhecer nosso trabalho e até comparar", declara Denise.Há cinco anos sem se apresentar no País, a trupe francesa busca um apoio ou patrocínio para voltar. "Estamos batalhando para trazer novas idéias aos brasileiros. Por enquanto, estamos vindo todos os anos para fazer workshops e seria interessante que os alunos assistissem aos espetáculos e vissem na prática o que aprendem nas aulas."Como Se não Coubesse no Peito. Balé da Cidade. 4ª, sáb. e 2ª, às 21h e dom. às 17h. R$ 2 a R$ 8.Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, tel. 222-8698

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