Balé da Cidade de São Paulo estréia Constanze no Municipal

A estréia de Constanze, coreografada por Mario Nascimento para o Balé da Cidade de São Paulo, em cartaz no Teatro Municipal até domingo, aconteceu dentro de um tipo de programação que agregou a Cia. 2, espalhada por vários espaços do teatro, às 20 horas, em Fragmentos Mozartianos, com direção de Fabio Mazzoni; o Corpo de Baile Jovem, que abriu a noite na sala principal, dançando Anlage, de Flávio Lima; e a Orquestra Sinfônica Municipal, em dia de estréia de seu novo regente, José Maria Florêncio.Comecemos pela relação música-dança. Tocar para uma companhia de dança/dançar com orquestra ao vivo pede por um expertise bem mais complexo do que simplesmente reunir dois corpos estáveis no mesmo espaço, para que cada um realize o que sabe fazer sem o outro. Será louvável, caso não se configure como um arroubo administrativo e sim, como um projeto de gestão.Faz-se mesmo necessário inventar modos da Cia. 2 se relacionar com seus colegas de elenco do Balé da Cidade. Ter eleito a ocupação espacial do teatro como um parâmetro resultou em uma boa experiência. Todavia, o mesmo não vale para a acomodação que foi feita entre profissionais (as duas cias. do Balé da Cidade) e não-profissionais (os alunos da Escola Municipal de Bailados).O Corpo de Baile Jovem pede por uma moldura adequada para que suas conquistas possam ser apreciadas - que não pode ser reduzida à coabitação no espaço dos profissionais. Como há grupos semelhantes espalhados por todo o País, a questão merece ser enfrentada por esse coletivo. Todos precisam de oportunidade para consolidar a sua dança, mas será preciso propor estratégias adequadas para a difusão desse tipo de trabalho - afinal, bem importante para o desenvolvimento da dança profissional.Quanto à Constanze, representa um avanço e tanto na trajetória do Balé da Cidade. Em primeiro lugar, por ser a primeira das duas coreografias que Mário Nascimento está criando nesse semestre para a companhia (a próxima, Onde Está o Norte?, estréia em junho). Essa nova proposta da direção merece ser celebrada, pois o fato de um mesmo coreógrafo poder permanecer tantos meses ensaiando com o elenco rompe com o mecanismo nefasto da coreografia-delivery que vinha se transformando em hábito (aquele onde o coreógrafo estrangeiro chega, fica uns poucos dias, monta a sua obra, e volta depois, na época da estréia, para limpar a obra).A direção acerta também quando escolhe Mario Nascimento para propor esse outro modo da companhia funcionar. Não somente porque Nascimento é hoje, no Brasil, um dos profissionais mais talentosos, mas sobretudo porque a movimentação que vem construindo promove rearranjos muito bem-vindos no corpo do elenco do Balé da Cidade.Em Constanze, cada uma das 13 bailarinas, a seu modo, zela para que sua movimentação não continue servindo a velhos hábitos. Já se nota, na dança que estão mostrando, a presença de um certo frescor no modo de articular e desarticular. O movimento escorre, tropeça, soluça, desvia, desloca, volta pro eixo e o abandona. O corpo desenha esquinas e curvas, praças e becos.Como se trata de uma peça encomendada pela direção do Teatro Municipal para seu ano Mozart (1756-1791), Constanze, que usa a Sinfonia nº 41, antecedida por uma leitura da Lacrimosa (do Réquiem) por Fabio Cardia, funciona com um aperitivo para o que deve vir por aí com Onde Está o Norte?. A habilidade em começar a construir esse outro entendimento de dança, que o elenco, dedicado e competente, já consegue delinear, nesse caso funciona também como um bom avalista do atual projeto de Mônica Mion, a diretora do Balé da Cidade. Constanze e Anlage. Teatro Municipal. Pça. Ramos de Azevedo, 3222-8698. Hoje e amanhã, 21h; dom., 17h. R$ 10 a R$ 15

Agencia Estado,

07 de abril de 2006 | 13h53

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