Balaio busca novos caminhos para o CPT

A série Prêt-à-Porter surgiu há quase quinze anos dentro do CPT - Centro de Pesquisa Teatral de Antunes Filho como uma promessa do novo. Um lugar de reinventar e testar possibilidades para o teatro e para os intérpretes que o diretor formava ali.

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2012 | 03h06

Balaio, montagem que estreia hoje no Sesc Consolação, guarda uma série de coincidências com esse espírito lançado pelo Prêt-à-Porter. À sua semelhança, trata-se de uma junção de cenas curtas - escritas e dirigidas pelos próprios atores.

Terminam por aí, porém, os pontos de contato entre os dois projetos. Concebida por alunos de Antunes Filho, Balaio trilha um caminho estético radicalmente diverso. Em 1998, cansado das interpretações altamente dramáticas, Antunes optava por um caminho de naturalismo absoluto em Prêt-à-Porter. Tratava-se de revelar um ator que surgia no palco como se não estivesse atuando.

Agora, seus jovens pupilos parecem tomados por outro tipo de influência. "Criamos as cenas tendo em mente conceitos como 'não-teatro' e fragmentação", observa Isabel Wilker, atriz de Pai, primeira das três cenas reunidas. Completam a peça A Quadratura do Círculo e Para Narizes Bem Preparados.

A busca por novos caminhos para o drama passa, neste caso, por uma acentuada aproximação com certas manifestações das artes visuais na contemporaneidade: instalações, performances e videoarte. Ainda que cada uma das cenas incorra por temas diferentes, um tom performativo impregna todas elas. Não há diálogos. Tampouco existem personagens a ser interpretados. É assim que quase todo o sentido emana não precisamente do que é dito, mas das imagens construídas para o público.

Pai, que abre a encenação, esmiúça a figura paterna a partir dos pontos de vista dos três intérpretes: Isabel Wilker, Mariana Delfini e Cristiano Salomão. Amealham-se reminiscências infantis, afetos e desencantos. Existe reverência a esse pai, mas também a necessidade de destruí-lo. Ou desconstruí-lo.

A segunda cena, Quadratura do Círculo, destoa um tanto das outras na sua dramaturgia. Seu texto não nasceu de um processo coletivo de criação. Foi escrito por Stella Prata, que já compunha o núcleo de dramaturgia do CPT, e é levado ao palco por ela e pela atriz Carolina Sudati. A contenção verbal das outras criações não aparece aqui. Na obra de Stella, uma artista de circo fala com a amante, que acabou de assassinar. "Lido aí com algumas obsessões e referências minhas, como o universo do horror", pontua a autora. Outro norte na composição é o conceito de "alteridade radical", do francês Jean Baudrillard. Em seus escritos, o filósofo e sociólogo tematiza o risco do encontro com o outro, a impossibilidade de se conhecer esse outro completamente e a ameaça, inclusive de morte, que ele representa.

Em Para Narizes Bem Preparados, que fecha o espetáculo, o espectador assiste aos percursos paralelos - e nem sempre coincidentes - das duas atrizes: Camila Turim e Nathália Corrêa. Em questão está a própria condição de artista: as possibilidades de se comunicar com a plateia, de atingi-la, de encontrar a expressão exata para suas ideias. O jogo imagético, que pauta Balaio em todos os seus momentos, atinge nesse ponto certo paroxismo. Fica evidente o esforço de compartilhar com o espectador algo real, ainda que essa realidade seja uma agonia ou uma dor.

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