Balada Literária une livros e música eletrônica

Realizada no Instituto Goethe, festa reuniu DJ alemão, obras nos dois idiomas e muita cerveja

Kívia Costa,

20 de novembro de 2010 | 17h12

O 'quintal' do Instituto Goethe de São Paulo já sinalizava que a noite de sexta-feira, 19, seria de misturas. Entre palmeiras e mesinhas de madeira que evocam os 'Biergarten' alemães, o público da 5ª Balada Literária esperava pelas 'wurst' do WunderBar (maravilha, em alemão) e pelo som do DJ Holger Beier.

 

No intervalo das discussões sobre literatura, entre uma cerveja e outra, o dj e produtor alemão ainda não pensava no que tocar: "Gosto de olhar para as pessoas no momento, sentir o que está acontecendo e então tocar". Ele também não reclamava do fermentado nacional "Já me acostumei com a cerveja daqui depois de cinco anos em Florianópolis", comenta entre risos.

 

Beier, que divide o tempo entre capitais nacionais e Berlim, nem titubeou para explicar porque deixou Berlim pelo Brasil. "Ah, essa é muito fácil", diz em português perfeito, "Minha mulher é brasileira".

 

Já chegava perto das 23h, quando ele assumiu a mesa de som. As batidas espaçadas só esperaram pelo fim do evento literário na biblioteca ao lado para crescerem em frequência. O som eletrônico incorporou trechos conhecidos, batidas populares, e arrastou para a pista brasileiros e alemães de todas as idades. Uma vez cativado o público, Beier invocou o colorido do eletro germânico e brincou com arranjos conhecidos dos berlinenses, como aqueles do duo Stereo Total.

 

 

 

 

DJ alemão Holger Beier tocou durante a balada literária. Foto: Kívia Costa/AE

 

 

 

 

 

"É um monte de gente de óculos que nem você, que não sabe dançar e só tuíta. 'Estou na balada'", brinca a publicitária e escritora Eliana Loureiro, enquanto registra sua percepção da festa. A amiga de oficina literária, Caroline Ramos, gosta da oportunidade de conversar com os autores. "Essa coisa de balada aproxima você do escritor. Quebra o mito de que ele é aquela pessoa distante, atrás da escrivaninha", observa a estudante de Filosofia.

 

Literatura. Berlim também é uma das personagens do livro Parte da Solução, de Ulrich Peltzer, cujo lançamento em português iniciou a Balada Literária da noite desta sexta. "A cidade tem se modificado muito. Pela primeira vez, ela recebe um grande aporte de dinheiro e de turistas. Eu já não reconheço Berlim", avaliou o autor durante bate-papo sobre militância (e a ausência dela) em tempos de globalização.

 

A ex-capital da Alemanha Oriental, ainda dividida entre a degradação e a modernização de seus espaços, foi escolhida por Peltzer como cenário da investigação que o protagonista Christian Eich faz sobre as Brigadas Vermelhas. Na trajetória, esse jornalista distante do engajamento político conhece a jovem ativista Nele, por quem desenvolve uma curiosa atração. Entre Berlim e o lado árabe de Paris, Eich vai precisar se decidir se quer ser parte do problema ou da solução.

 

Berlim também é um lugar ideal para se escrever um livro, na percepção do escritor gaúcho Marcelo Carneiro da Cunha. "A cerveja é boa e as mulheres não dão bola para você", brinca ele enquanto arranca risos da plateia. Durante a leitura descontraída de trechos do seu livro Depois do Sexo, o autor explicava porque quis passar os 29 dias que tinha para escrever a obra em um apartamento da parte leste da cidade.

 

O drama do residente de medicina Matias, dividido entre o vermelho do sangue e o branco da cocaína, não passa em nenhum momento pela Alemanha, mas a capital daquele país foi a inspiração de Cunha. "Berlim é uma das cidades mais interessantes que existe. É um lugar de mudanças, em que nada vai estar como há dois anos", diz

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