Balada Literária de Marcelino Freire domina Vila Madalena

Escritor premiado, Marcelino Freire celebra o sucesso do evento que agita a Vila Madalena há quatro anos

Edison Veiga, de O Estado de S. Paulo,

18 Novembro 2009 | 16h37

Chama-se Balada Literária e não tem pompa nem frescura a festa cult que, pelo quarto ano consecutivo, agita bares, centros culturais e livrarias da Vila Madalena, do dia 19 a 22, com eventos extras dias 25 e 29. Mas - prova do sucesso que é - atrai para suas mesas nomes consagrados como Lygia Fagundes Telles, Mario Prata, João Gilberto Noll e João Ubaldo Ribeiro. À frente dessa empreitada está o escritor Marcelino Freire, 42 anos, nascido em Sertânia (PE) e radicado em São Paulo desde 1991.

 

Boêmio inveterado, recebe a reportagem em um bar - o Mercearia São Pedro - que fica a poucos metros de sua casa e começa contando que a ideia da Balada nasceu da vontade de tomar mais cerveja. Foi em 2005 e Marcelino estava na famosa Flip, a Feira Literária Internacional de Parati. "Aí me dei conta que lá faltava cerveja", lembra. "Eu era um bêbado sofrido, perambulando por Parati e mendigando cerveja. Não pode faltar cerveja em uma festa. Fiquei indignado."

 

Então propôs ao proprietário da Livraria da Vila, Samuel Seibel, a criação de um evento literário na Vila Madalena. "Pô, aqui tem os bares todos... Cerveja não vai faltar." No ano seguinte ocorria a I Balada Literária, com apoio da livraria.

 

Consolidado, o evento espera receber este ano cerca de 100 escritores, entre figuras conhecidas, novatos e gente alternativa em debates com o público. Nas semanas que antecedem a festa, o celular de Marcelino não para - o telefone tocou sete vezes durante as duas horas em que durou a entrevista ao Estado. "Eu não tenho equipe nem patrocinador oficial", diz. "Peço ajuda de um por um, até para os taxistas. Costumo dizer que, enquanto as outras festas são feitas com um milhão, esta é feita com humilhação." A livraria de Seibel, primeiro a compartilhar o projeto, sempre esteve entre os apoiadores.

 

Capítulo primeiro

 

Caçula de 14 irmãos - dos quais somente nove vingaram -, Marcelino teve o estalo de se tornar escritor aos 9 anos de idade, quando já morava no Recife (PE). Leu um poema de Manuel Bandeira (1886-1968) no livro escolar de um irmão e ficou fascinado. Pediu uma obra dele de presente - "em uma casa onde pouco se lia", frisa. Ganhou Estrela da Vida Inteira. "Quando soube que Bandeira era pernambucano que nem eu, vi que eu podia me tornar alguém como ele." E a vontade de ser poeta corroborava a observação constante do pai, que insistia, desgostoso, que Marcelino era um "menino muito aluado".

 

Adolescente, arrumou emprego em um banco. Começou como office boy, depois virou escriturário e, por fim, revisor. "Com o tempo, revisava até as cartas do presidente do banco", diz. Essa rotina durou até 1989, quando decidiu pedir a conta para tentar se tornar escritor - ele já fazia faculdade de Letras, curso que jamais concluiu.

 

Dois anos depois, mudou-se para São Paulo, cidade que ele ainda nem sequer conhecia. "Dois dias de viagem dentro de um ônibus, cheguei aqui e tudo era feio e frio", afirma. "Mas eu queria essa bagunça. Estava cansado de tanta beleza, sol, praia... E, além disso, sou preguiçoso. Muito preguiçoso. Então preciso de uma cidade veloz." E completa: "Recife amanhece. São Paulo acorda. Eu precisava de uma cidade que me acordasse."

 

Volume II

 

Morou de favor na casa de um amigo em Aricanduva, zona leste. Uma edícula. "Ele dividia comigo até o que não tinha", emociona-se. Conseguiu rápido trabalho de revisor em uma agência de publicidade e logo se mudou para uma travessa da Avenida Paulista. Viveu também no Bexiga até encontrar o seu cantinho paulistano: o bairro da Vila Madalena, na zona oeste, seu endereço desde 1995. Mora sozinho. Ou melhor, na companhia de quase 400 pinguins de geladeira. Quase uma metáfora do "sertanejo", como gosta de lembrar. "A gente chega e passa muito frio aqui em São Paulo", brinca. "Na verdade, eu queria um. Depois resolvi que três ficariam bem em cima da geladeira. Aí coloquei seis, depois 12. Hoje todo mundo me presenteia com um pinguim."

 

Página atual

 

Entre idas e vindas, trabalhos fixos e frilas, atuou como revisor publicitário até 2006. Paralelamente, conciliava sua carreira de escritor. Assim lançou AcRústico (em 1995), eraOdito (1998), Angu de Sangue (2000), nova edição de eraOdito (2002), BaléRalé (2003), Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século (2004), Contos Negreiros (2005) e RASIF (2008). Em 2006, levou o Prêmio Jabuti por Contos Negreiros.

 

"Aos poucos comecei a perceber que minha agenda estava tomando praticamente o ano todo", relembra, citando inúmeras participações em eventos literários, convites para palestras e seu trabalho em oficinas para aprendizes da escrita. Era hora de deixar por completo de ser revisor para viver somente - e exatamente - como escritor.

 

Entre uma viagem e outra, é na mesma Vila Madalena que persiste. De livraria em livraria. De café em café. De sebo em sebo. De bar em bar. "É o caminho da perdição etílico-literária", define. De preferência, com laptop a tiracolo. "Gosto de levar as ideias debaixo do braço."

 

Os "points" do evento

 

Biblioteca Alceu Amoroso Lima. Rua Henrique Schaumann, 777, Pinheiros. Tel. (11) 3082-5023

Espaço Plínio Marcos. Praça Benedito Calixto - Durante a feira

Livraria da Vila. Rua Fradique Coutinho, 915, Vila Madalena. Tel. (11) 3814-5811. www.livrariadavila.com.br

Centro Cultural O Barco. Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, Pinheiros. Tel. (11) 3081-6986 www.obarco.com.br

Mercearia São Pedro. Rua Rodésia, 34, Vila Madalena. Tel. (11) 3815-7200

Ó do Borogodó. Rua Horácio Lane, 21, Pinheiros. Tel. (11) 3814-4087

Sesc Pinheiros. Rua Paes Leme, 195, Pinheiros. Tel. (11) 3095-9400

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