Baixo que se agiganta

Ex-baixista de Miles Davis, Dave Holland traz seu mítico quinteto ao Sesc Belenzinho, fala de Hendrix e da bossa

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2012 | 02h10

Hoje em dia, um grupo de jazz que toca junto há 15 anos é raro, mas é ainda mais impressionante quando ele é encabeçado pelo contrabaixista Dave Holland, de 66 anos, um dos mais importantes instrumentistas do gênero.

Após seis anos, os brasileiros terão de novo a chance de ouvir o Dave Holland Quintet nos dias 27 e 28, no Sesc Belenzinho (ele veio em 2010, mas com um quarteto). É seu ensemble mais tradicional - o músico britânico também toca com um quarteto, com uma big band e acaba de lançar um disco em que toca flamenco, Hands, com o espanhol Pepe Habichuela.

Dos jazzistas históricos (ele tocou com Miles Davis no famoso disco Bitches Brew), Holland é um dos que mantêm atividade mais frenética. "Recentemente eu estava em Wisconsin tocando com minha big band. Também tenho uma nova banda, um quarteto, com Kevin Eubanks na guitarra, Craig Tabot no piano e fender rhodes e Eric Harland na bateria. Tem piano elétrico e guitarra elétrica, mas não gosto de chamar de banda elétrica. O nome do grupo é Prism", contou o baixista, em entrevista ao Estado.

Como foi tocar com Jimi Hendrix em 1970?

Foi muito legal. Estando em Nova York e em torno de Miles e da cena musical naquela época era muito frequente e natural esse tipo de encontro. Foi assim que ele me ligou um dia para ir encontrá-lo no estúdio e tocar com ele, com John McLaughlin e Buddy Miles. Eu adoro a música de Jimi Hendrix, que grande performer ele foi, que grande músico!

E de todos os anos que passou com Miles Davis, qual foi a grande lição que ele lhe ensinou?

A ideia de respeitar as características de cada um de seus músicos em seu grupo e dar-lhes liberdade de criar suas ideias. Ele escolhia cuidadosamente todos os que iriam trabalhar com ele, mas depois esperava que cada um desse sua contribuição. Não era um ditador. Apresentava o conceito, mas estimulava a contínua recriação da música, o esforço em não deixá-la estagnar. Ao contrário do que dizem, nunca foi um homem difícil de lidar. Desconfie sempre de quem lhe disser isso.

Ouvindo sua canção Sea of Marmara, sinto uma espécie de sabor de bossa nova. Estou errado?

Essa música é uma composição de Chris Potter. Acho que a música do Brasil influenciou o mundo todo. Repentinamente, a gente passou a absorver esse sentimento e essas ideias e transformar em outra música de nossa própria maneira. Torna-se inconsciente. Quando começamos a compor juntos, cada um extrai de si aquele leque de experiências que o compõe como pessoa, é um processo normal.

Você tem sempre a ambição de tocar com o mesmo grupo durante décadas?

Há diversos tipos de relacionamentos musicais, às vezes curtos, às vezes longos. No caso do quinteto, começamos a tocar juntos em 1997, já se vão 15 anos. Alguns não duram tanto. Para mim, isso sempre significa desenvolvimento. Às vezes, relações musicais, às vezes o jeito de tocar, o jeito de gravar e documentar. Todo o processo é enriquecedor. E a amizade, que guarda o próprio sentimento da música. Vejo que a amizade com os músicos do quinteto acrescenta coisas ao próprio jeito de a gente gravar ou improvisar. Todas as situações musicais.

E como foi gravar um disco essencialmente de flamenco, com Pepe Habichuela?

Fui tocar em Sevilha, na Andaluzia, em um centro de artes. E o diretor daquele centro disse que gostaria de me ver tocando com um artista de flamenco, e eu achei interessante a proposta. E ele arrumou um encontro com Pepe, acho que foi em 2007, e antes disso eu já tinha visto Pepe tocar, é um dos grandes violonistas do gênero. Gostamos um do outro, e quando tocamos juntos foi muito legal e pensamos que poderia ser bacana tentar algo. Voltei à Espanha mais duas vezes e, em 2009, arranjamos um estúdio em Madri e gravamos esse disco, lançado em 2010. Foi um processo de aprendizado para mim, porque não conhecia muito no começo, ainda sou um aprendiz, e Pepe foi um maravilhoso professor. É uma forma de música muito complexa, com muitas formas e ritmos, é realmente única. E após tocarmos muito, eu me tornei confiante o suficiente para ir ao estúdio gravar com ele. Vamos fazer uma turnê no ano que vem, a partir de abril, na Europa. Adoraríamos ir ao Brasil, mas é uma turnê um tanto cara, ainda não temos uma oferta para isso.

Como as experiências com os diferentes grupos afetam sua atividade de compositor?

Como qualquer compositor, você já compõe especialmente para o tipo de ensemble no qual está tocando. No caso da nossa música, envolve muita improvisação, então tenho de pensar como apresentar cada personalidade dos músicos da banda em cada diferente composição. Quando é uma banda grande, você precisa mais organização e muito mais partes de ritmos para os músicos; uma banda pequena, menos organização você precisa, e deixa mais espaço para cada músico interpretar aquela música. Cada grupo que integro eu atento para duas coisas: primeiro, o som daquele grupo, que tento explorar as personalidades, o jeito que tocam, e o que eles podem acrescentar ao ambiente da composição.

Então, o quinteto é o mesmo, com Chris Potter, Steve Nelson, Nate Smith e Kevin Eubanks, certo?

Não, é o Robin Eubanks, irmão de Kevin, no trombone. Kevin Eubanks toca guitarra com o quarteto. São três irmãos músicos, tem ainda o trompetista Duane Eubanks. É um erro comum (risos).

São muitas famílias de músicos.

Sim, famílias talentosas. Como os Jones, com Elvin Jones, Hank Jones e Thad Jones. E os Heath, com Percy Heath e seus irmãos Albert e Jimmy Heath.

O senhor integra, com Ron Carter e Charlie Haden, a tríade dos maiores baixistas do planeta na atualidade. Baixistas muito diferentes. Mas o senhor e Haden parecem mais conectados com aquele ambiente de vanguarda dos anos 1960 e 70.

Não sei se mereço estar nessa lista. Bom, eu acho que Ron Carter também é muito presente naquele ambiente, discordo de você de que eu e Charlie Haden nos envolvemos mais. Fui muito influenciado por Ron Carter antes de vir para Nova York, em 1963, 1964. Ouvi todos os discos que ele fez com Miles, e os seus álbuns da Blue Note, com Herbie Hancock, McCoy Tyner. Ele fez discos fantásticos.

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