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Bairros paulistanos viram peças teatrais

Companhias apostam em olhar voltado para o espaço urbano para reinventar o teatro político

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

19 de abril de 2012 | 03h10

Fazer uma arte que se pretenda engajada, que tencione ser instrumento de ação social, de transformação política. Os anos parecem tornar a tarefa cada vez mais difícil. Como levar tal ambição adiante em um mundo em que todas as certezas parecem ter se tornado fluidas?

Talvez o caminho esteja em substituir as respostas pelas perguntas. Distanciar-se um tanto de macroestruturas para olhar o que está mais próximo: a cidade, o bairro, a rua em que se vive. Em seu novo espetáculo, a Cia. São Jorge de Variedades toma esse rumo.

Com estreia marcada para o próximo dia 4, Barafonda é um mergulho do coletivo na história da Barra Funda. Consumiu quase dois anos de pesquisa. Surge como uma montagem itinerante, que começa à margem do Minhocão e conduz o público por cerca de 1,7 quilômetro, até chegar à linha do trem e ao antigo Largo da Banana. "Queremos trazer as pessoas de uma maneira mais festiva, inclusive abrindo espaço para as interferências que extrapolam a cena", comenta a atriz Georgette Fadel.

Mas esse olhar voltado para o espaço urbano não é exclusividade da Cia. São Jorge. Ao contrário. Insinua-se em uma série de trabalhos da safra recente. No dia 27, o Teatro da Vertigem apresenta trechos do projeto que deve estrear em junho: uma investigação sobre o Bom Retiro, foco de fluxos migratórios dentro da cidade.

O novo espetáculo do Folias, atualmente em cartaz, também localiza-se no mesmo espectro. Em A Saga Musical de Cecília..., o grupo reinventa seu lastro militante tematizando justamente o seu entorno. A partir do percurso de quatro personagens, realiza um amálgama entre sua trajetória e a história da Santa Cecília, onde está sua sede.

Refletir sobre a cidade parece ter se tornado um meio de reinventar o teatro político. Ou, ao menos, de equacioná-lo de outra maneira. Nas relações de micropoder que regem o cotidiano existe alguma pista para entendermos a complexidade e as contradições de uma época.

"É como se houvesse um movimento de retomada do espaço urbano, que foi retirado das pessoas", observa a crítica teatral e professora da USP Sílvia Fernandes. "Essa questão dos condomínios fechados, dos shopping centers, das áreas privadas. É a contra face disso que o teatro está se mobilizando."

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