Bailarinas deficientes visuais ganharam 14 prêmios

Atentas à música e às marcações doritmo, as bailarinas movimentam-se ágeis pelo palco. Dançam emperfeita harmonia com as demais colegas em cena. Só que não asvêem. São todas deficientes visuais e participam de um grupo debalé, mantido pelo Instituto de Cegos Padre Chico, no Ipiranga,zona sul de São Paulo. O que para muitos pode parecer impossível para as integrantes traduz mais que um sonho: é a realidade dasmeninas sem visão, flutuando ao som da melodia. A deficiência não parece comprometer o resultado dotrabalho. Só este ano o grupo de dança já recebeu 14 premiações."Não quero que elas tenham reconhecimento por serem cegas, maspor dançarem com qualidade", diz a professora FernandaBianchini. Formada em balé clássico e fisioterapeuta porprofissão, ela ministra aulas de dança voluntariamente nainstituição há oito anos. Graças à sua insistência em inscreveras alunas em festivais especializados foi criada, no Brasil, umacategoria de dança específica para portadores de deficiências. No dia 15, as 27 alunas, com idades entre 4 e 20 anos,apresentaram-se em um espetáculo com 25 coreografias e duashoras de duração, no teatro do Instituto Padre Chico. A propostade montar o grupo partiu da coordenadora da entidade, irmãMadalena Marques. Para Fernanda, o convite para ensinartransformou-se em desafio."Sempre ouvi dizer que para dançar era preciso enxergar evárias professoras me desaconselharam a trabalhar comdeficientes visuais", conta. O trabalho com as meninas cegasmostrou que estavam enganadas. Aos poucos, Fernanda desenvolveuseu próprio método, pioneiro, para ensinar. Primeiro, elaestimula noções espaciais, expressão corporal e ritmo. Oaprendizado dos passos é feito por meio de toque e imitação. Asmeninas tocam o corpo da professora e repetem os gestos,orientando-se pelas marcações da música. No início do aprendizado, o equilíbrio é um ponto querequer especial atenção. O que não falta por parte das alunas,entretanto, é empenho. As aulas com a professora acontecem sóuma vez por semana, mas as bailarinas se reúnem, pontualmente,três outros dias, para ensaiar sozinhas. "Eu me apaixono pelas coreografias", diz a estudanteMarina Alonso Guimarães, de 15 anos, desde 97 no grupo. Apesarde só enxergar vultos, de forma precária, desde pequena elaandava de bicicleta e patins em lugares conhecidos. "Isso medeixou mais independente." Sua colega Carla Cristina Lopes, de 17 anos, lembra-semuito vagamente de ter visto cenas de balé quando ainda eramuito pequena. Depois disso, perdeu totalmente a visão. Averdadeira descoberta da dança, para ela, deu-se quando tinha 13anos. "Não queremos que achem que somos ´coitadinhas´ edançamos ´bonitinho´ só porque não enxergamos", diz. Na opinião da irmã Madalena, uma das vantagens do balé édesenvolver a auto-estima nas crianças e adolescentes. "Depoisque entrei para o grupo me sinto mais confiante", atestaAldenice de Souza Moreira, de 16 anos. Cega, como suas outrasduas irmãs, quer avançar nos estudos para participar deapresentações fora do instituto com as alunas mais experientes. O grupo apresentou-se, em julho, no Festival de Invernode Campos do Jordão, participou de programas de televisão erecebeu vários convites para dançar em outras cidades,geralmente no próprio Estado. Mas Fernanda sonha mais alto."Minha intenção é que elas se apresentem em espetáculos fora doBrasil", diz. Ela sabe, porém, que para isso o grupo precisa depatrocínio. "Infelizmente, a maioria de nossas alunas vêm defamílias de pouco poder aquisitivo." Para confeccionarfantasias e custear viagens o grupo recorre à venda de rifas eajuda de conhecidos. "Em geral não peço dinheiro, mas sim queofereçam um par de sapatilhas, por exemplo." Como Fernanda faz questão de que o grupo concorra emcondições de igualdade com os demais participantes, a própriainstituição arca com as despesas de inscrição, em geral porvolta de R$ 50,00 por bailarina, transporte e alimentação. Aprofessora calcula que se obtivesse patrocínio de R$ 1 mil pormês já poderia trabalhar com mais tranqüilidade. Ela tem planos de conseguir, para cada menina, um pontoeletrônico no ouvido para as apresentações. Isso possibilitariaque as orientasse durante o espetáculo, o que tornaria amovimentação mais segura no palcos desconhecidos, onde apossibilidade de um tombo é maior. "Enquanto não temos esserecurso, fico da coxia, gritando para que cheguem mais para afrente ou para trás." Outra ambição de Fernanda é ter uma salade ensaio com barra e espelho, para poder corrigir os movimentosdas alunas com maior precisão. Enquanto não consegue tudo o queprecisa, não se cansa de ensinar: "Uma bailarina deve sempreolhar para as estrelas, ainda que não as enxergue."

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