Bailarina Louise Lecavalier se apresenta no Brasil

Louise Lecavalier é um ícone da dança contemporânea. A loura musculosa deixou cravada a sua marca na badalada companhia canadense La La La Human Steps, que fundou ao lado do coreógrafo Édouard Lock. Sua presença de palco e seu estilo único e marcante inspiraram artistas de todo o mundo. A bailarina colecionou prêmios, como o Bessie Award, de Nova York, e o Jean A. Chalmers National Award, do Canadá. Se apresentou, junto com o La La La, com David Bowie e Frank Zappa. "O La La La foi minha vida por 18 anos, é parte de mim", diz a intérprete em entrevista ao Estado. Mas como nada é eterno, agora a musa segue novos caminhos em um grupo independente e apresenta o espetáculo Cobalt Rouge, coreografado por Tedd Robinson. O espetáculo aborda as relações humanas, a fragilidade dos relacionamentos e a passagem do tempo, como ela define: "É o reflexo das nossas relações com os outros e com nós mesmos." A abertura da turnê será nos dias 18 e 19 no Teatro Municipal do Rio, depois segue no dia 22 para o Teatro Nacional de Brasília e fecha no Teatro Alfa, dias 25 e 26, em São Paulo. Cobalt Rouge abre a temporada de dança da Antares. Entre os destaques da produtora, o Royal Ballet, de Londres, que se apresenta em junho com a presença dos brasileiros Roberta Marquez e Thiago Soares no elenco. Uma boa notícia para os amantes da dança foi a criação do Prêmio Reconhecimento Antares Dança - peça criada especialmente pela artista plástica Maria Bonomi para a premiação. No ano passado foram contempladas Ruth Rachou e Dalal Achcar. Este ano as premiadas são: Angel Vianna, Marilena Ansaldi e Yara De Cunto. Como foi a experiência de deixar o La La La Human Steps e criar sua própria companhia? Como foi o período com o grupo de Lock? Para mim, saí no momento certo do La La La Human Steps. Sem sentimentos ruins e muito menos tristeza. Entretanto, eu não estava segura sobre o caminho que queria tomar, eu sabia que as direções que Édouard Lock seguia não eram apropriadas para mim, não apenas por causa da técnica que ele queria explorar, mas porque a companhia estava crescendo tanto, que a pressão aumentou demais. Eu não queria mais trabalhar nesse contexto. Criar minha própria companhia? Não queria passar de novo por isso. Com Édouard, de alguma maneira, eu criei uma companhia. Hoje acredito que trabalhar por projetos individuais me dá a sensação de liberdade. Há também um senso de responsabilidade muito grande mas, em um nível menor, com o qual consigo lidar. Não tenho o desejo de formar outro grupo. Isso só me impediria de dançar, que é a parte que eu mais gosto. Sobre minha experiência com o La La La, perguntar o que eu achei sobre ela seria como perguntar o que achei da minha vida. La La La foi minha vida por 18 anos, é parte de mim. Você é considerada uma musa na cena da dança contemporânea internacional e contribuiu muito para o crescimento do La La La Human Steps. Quais são as suas expectativas para este novo trabalho? Entro em estúdio sem nenhuma lembrança daquilo que já foi dito sobre meu trabalho. Espero ser tão simples e manter o frescor como uma iniciante. É este o grande privilégio de trabalhar com a arte. A oportunidade de estar só em um estúdio dá a possibilidade de fazer descobertas. Então, se você já começa com a mente repleta de idéias, está desperdiçando novas possibilidades. Como foi o processo criativo de Cobalt Rouge? O que a coreografia significa para você? Cobalt Rouge foi o primeiro grande trabalho que fiz depois de deixar o La La La Human Steps. O processo criativo foi similar ao que fazia com eles. Tedd Robinson criava movimento no estúdio. Aos poucos, íamos lentamente acumulando pequenas frases coreográficas, que semanas ou meses depois se transformavam em dança. As coreografias de Robinson possuem frases coreográficas curtas que parecem surgir do nada, como se o corpo estivesse surpreendendo a mente ou se movendo tão rápido quanto o pensamento. Cobalt Rouge não conta uma história, mas expressa uma travessia pelo tempo e pelo espaço a partir do movimento dos intérpretes no palco, à medida que eles se encontram, passam um pelo outro ou se afastam. Eles revelam a si mesmos no modo como se movem e se comunicam. Em cena alguns poucos acessórios. O movimento deles revela uma fragilidade na conexão entre mente e corpo, fragilidade que não corresponde à fraqueza: é, ao contrário, alegre, irônica, trágica, misteriosa e forte. É também o reflexo das nossa relações com os outros e com nós mesmos. Como você define o seu novo trabalho? Que técnicas são usadas? Quais são os objetivos de suas coreografias? Primeiro, não falaria em técnicas. O ponto de partida é minha fascinação pelo impulso do movimento que precede todas as formas de comunicação humana. Eu me identifico com os coreógrafos cujo senso de movimento captura uma certa sutileza. Eu quero sentir a força evocativa de sua linguagem gestual a ponto de ser capaz de entender sua intuição. Ao trabalhar com coreógrafos diferentes com quem sinto afinidade, espero atingir uma nova forma de cumplicidade criativa e abrir novas possibilidades e outros caminhos . Você tem uma trajetória brilhante. O que você busca neste momento? Quais são suas expectativas para o futuro? Não vivo no passado. Vivo no presente e quase, mas ainda não, no futuro. Sempre me mantenho aberta para novidades. Creio que o passado me dá a base e a força para novos caminhos, novas oportunidades. Não preciso pensar no que já fiz. O que ficou do passado continua comigo de maneira natural. É uma estrutura natural, que me permite seguir para novos territórios. Como o trabalho e as técnicas de Édouard Lock influenciam seu trabalho atual? Não sei quanto o seu trabalho me influenciou, mas continuará sendo uma referência para mim. O número de anos que passei dançando com ele é maior do que o número de anos que passei sem ele, de forma que qualquer direção que eu siga terá sempre alguma ligação com Lock. Quais os novos projetos? Estou trabalhando com o coreógrafo canadense Benoit Lachambre em um solo, que será apresentado em maio na Europa. Benoit é muito conhecido por trabalhar na Europa com Meg Stuart, entre outros grandes nomes. Juntos, utilizamos bastante a técnica da improvisação. Como você definiria o papel das mulheres na dança contemporânea de hoje? O que mudou desde que você começou? As coisas realmente mudam? Bailarinas mulheres sempre precisaram ser fortes. É por causa da moda que escolhemos apresentar mulheres, às vezes como guerreiras e outras vezes como bailarinas românticas?

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