Baião de mil. Gonzaga, De Pai para Filho em

Épico de Breno Silveira é a cereja no bolo do centenário de Luiz Gonzaga

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 03h08

São 58 CDs, e eles começarão a chegar às lojas em pequenos lotes, a partir de setembro. A Sony, que detém o catálogo da RCA - empresa pela qual Luiz Gonzaga gravou a maior parte de sua obra -, também negociou com a EMI, detentora dos direitos da Odeon, para relançar toda a discografia do rei do baião. Há um revival de Gonzagão, o sanfoneiro do Brasil, aproveitando que em dezembro, dia 13, comemora-se o centenário de seu nascimento. Antes disso, em novembro, Breno Silveira lança Gonzaga, De Pai para Filho.

Prepare seu coração porque o que vem por aí não é pouca coisa. Você pode ter um gostinho do que será Gonzaga, o filme, acionando o promo na internet (veja o endereço abaixo). São imagens impactantes. O diretor Breno Silveira arrisca que fez o filme mais forte de sua vida. Há sete anos que Gonzagão o assombra e persegue. Não só o pai, o filho, Gonzaguinha. Tudo começou quando ele recebeu, de duas mulheres, um bilhete - e uma caixa. "Sabemos que você não quer mais fazer biografias, mas ouça estas fitas."

A primeira fita era um depoimento de Gonzaguinha, gravado quando ele rumava para o enterro do pai. Gonzaguinha revivia as diferenças, os ressentimentos e a difícil relação que teve com Gonzagão. Num determinado momento, diz que está adentrando um sertão que desconhece. E, olhando pela janela do carro, vê a lua. "O velho Lua (como Gonzagão era chamado) está velando por mim." Breno admite que a sinceridade do depoimento o fez vacilar. Os olhos umedeceram. As outras fitas registravam um diálogo de Gonzagão e Gonzaguinha. Entre pai e filho. Um acerto de contas no qual aflora o grande tema - Gonzaguinha era ou não filho biológico? "Não importa se meu sangue corre em suas veias ou não. Você é meu filho", diz Gonzagão.

Começou a nascer ali o longa de Breno Silveira. Outra biografia, depois de 2 Filhos de Francisco? "Não faço biografias, conto essas histórias malucas", define o diretor. Zezé Di Camargo e Luciano eram coadjuvantes da própria história em Francisco, centrado na figura de seu pai, que tinha um sonho - fazer dos filhos artistas. Gonzaga é, de novo, sobre pai e filho, sobre uma família fraturada e a sua remissão. E, antes de Gonzaga, agora em agosto, Breno estreia À Beira do Caminho, sobre um caminhoneiro que toma sob sua proteção um garoto que procura o pai. À Beira do Caminho não é biografia, mas é o mais puro Breno Silveira, que joga a carta da emoção (sempre), e se beneficia da trilha com canções de Roberto Carlos.

O Rei foi generoso e fez um precinho camarada, para que Breno pudesse ter suas canções na trilha. Elas embalam a relação (difícil, como sempre) de João Miguel com o menino Vinicius Nascimento. Lançar um filme como À Beira do Caminho, daqui a duas semanas, já tiraria o sono de muito diretor ansioso, mas Breno ainda soma à correria do lançamento o estresse da montagem de Gonzaga. Ele costuma demorar na edição de seus filmes. O caso de À Beira do Caminho foi extremo, porque uma tragédia pessoal (a morte da mulher) impediu que, durante quase um ano, Breno quisesse ver aquelas imagens. O filme é sobre perdas, doía no peito. Gonzaga, agora, está sendo montado rapidamente. São apenas dois meses e meio e ele já tem de mostrar uma versão do filme na semana que vem.

Como reduzir uma vida como a de Gonzagão em duas horas? Breno gostaria de bater pé e dizer que, como autor, precisa de mais tempo. Mas há muita pressão - a Prefeitura do Recife, a Globo Filmes, os parceiros pressionam por causa do centenário. Breno fez um épico intimista. Diz que o filme tem 'tamanho' e, mesmo assim, Gonzagão não cabe dentro dele. A toda hora surgem novas histórias que gostaria de acrescentar - mas como, se a hora é de tirar? Ele corta, repõe, testa aqui e ali. Só não quer alterar o formato - Gonzagão, pressionado pelo filho, conta sua história. Gonzaguinha é Júlio Andrade, que fez teste para o papel. Colocou peruca, a camisa xadrez do cantor e compositor e vestiu mais - a sua arrogância. Quem é esse maluco, perguntou-se Breno? Júlio tinha de fazer o papel porque seu pai era louco por Gonzaguinha, cantava todas as suas músicas. De pai para filho. E Gonzagão. Breno tem o jovem Gonzaga e o maduro. O jovem é Land Vieira, que veio do Cordel Encantado. O maduro é Nivaldo Expedito de Carvalho, o Chambinho, selecionado entre 5 mil sanfoneiros que atenderam ao chamado para teste em rádios do Nordeste. Cinco mil!

Uma equipe fez a pré-seleção. Tirou cem (pela semelhança), reduzidos a 40, e a 15. Chambinho canta e toca, mas não atuava. E o papel pede um ator. Breno tenta, mas não consegue explicar o mito, que cresce dentro dele. Permitiu-se uma licença poética. "Queria que o Chambinho cantasse, mas o pulmão do Lua é uma coisa fora do comum. Chambinho começa cantando e Gonzagão toma conta. Entra, porque é insubstituível. A voz, o carisma fizeram o mito. É muita emoção" - como Breno gosta.

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