Bahari, duro com o Xá Ahmadinejad

Diretor que também é jurado fala do filme que fez sobre o antigo regime para criticar a república dos aiatolás

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2011 | 00h00

Amante de futebol, Maziar Bahari preparava-se ontem para ir à Vila, para assistir à decisão de Santos e Colo Colo. Ele admitia, antecipadamente, torcer pelo Peixe. "O futebol brasileiro é o melhor do mundo", justificou. Bahari está no Brasil participando do 16.º É Tudo Verdade. Exibiu dois filmes - o longa A Queda de Um Xá e o média Uma Odisseia Iraniana. Permanece em São Paulo como jurado da competição internacional.

Ele tem visto muitos filmes, longas, curtas. "Já participei de outros júris e é sempre enriquecedor assistir a filmes de outras procedências." A competição não traz apenas trabalhos de diferentes origens. Dentro do formato, eles também diferem quanto ao estilo - documentários experimentais, que alguns espectadores até se perguntam se permanecem documentários, e outros mais tradicionais, informativos. "Há espaço para tudo, o importante é que sejam bons." E o que é o filme bom? "É o que motiva, ilumina, mas também interroga."

Bahari reside há 15 anos em Londres. Há dois, de volta ao Irã, por causa de A Queda de Um Xá, ele foi preso. Seu interrogador o pressionou duramente. "Percebeu que eu havia feito um filme sobre o antigo regime para falar do atual." O Xá do título é Mohamed Reza Pahlevi, deposto em 1979 pela revolução que colocou os aiatolás, Khomeini à frente, no poder do Irã. Bahari não tem uma opinião lisonjeira sobre a república islâmica. Nem a considera uma república. "O antigo Xá se considerava no poder por direito divino, por ser descendente de reis. (Mahmoud) Ahmadinejad representa outro tipo de Xá e invoca o poder de Alá."

Em ambos os casos, os regimes são autocráticos, autoritários. Bahari é jornalista - era, até janeiro deste ano. Agora, define-se como ativista. Sua causa é a dos direitos humanos. O caso Jafar Panahi vem à tona. "É absurdo um regime privar um cidadão de seu trabalho, como fez Ahmadinejad com Panahi." O cineasta está preso e ainda foi impedido de fazer filmes por 20 anos. Tem havido uma sutil mudança de posição do Brasil em relação ao governo do Irã. Luiz Inácio Lula da Silva apoiava mais Teerã. Dilma Rousseff tem sido mais exigente quanto aos direitos humanos.

Mas Bahari entende Lula. "Como veio da oposição a uma ditadura apoiada pelos norte-americanos, a dureza de Ahmadinejad com Washington só pode ser fascinante para ele." Bahari trabalha num documentário que conta a história dos direitos humanos, a partir de Gandhi. Sua busca é sempre a da eficiência da linguagem. Ele não se considera um artista, como Abbas Kiarostami - a propósito, ainda não viu Cópia Fiel, em cartaz na cidade. O artista tem de ter uma espécie de gênio. Diz que não é seu caso. Mas, como documentarista, não deixa de encarar questões estéticas com as éticas e políticas que o mobilizam, como militante. Um de seus filmes chama-se Football, Iranian Side. O tema é a paixão dos iranianos pelo esporte e também as restrições sobre as mulheres. Jafar Panahi fez Fora de Jogo, sobre uma garota que tenta de tudo para assistir a um jogo (o que é vetado às mulheres). Football, Iranian Side não deixa de ser o Fora de Jogo do documentário.

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