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Bafafás literários

Como todas as demais categorias, também os escritores podem chegar à troca de sopapos - às vezes nem um pouco literários, sopapos literais.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2015 | 02h06

Aqueles dois ali, por exemplo, que você conhece e admira, estrelas da máxima grandeza da cultura brasileira, ambos então na casa dos 30 e poucos anos, bons camaradas de repente estremecidos por causa não de cadeira na Academia de Letras, mas das cadeiras de certa, certíssima garota. Um deles, solteiro, o outro já pai de família. Informado de que este caçador impenitente ciscava em terreiro que considerava seu, o solteiro foi tocaiá-lo na porta da repartição - e partiu pra cima dele. O outro, magro porém valente, reagiu - e armou-se um bafafá, um empurra-empurra em meio ao qual os óculos do solteiro foram ao chão, sendo esmigalhados sob os pés da turma do deixa-disso. Arrastado para fora do fervedouro, ao dono dos óculos só restou bramir: "Poetinha de merda!"

O poetinha em questão era Carlos Drummond de Andrade, já àquela altura (meados da década de 1930) admirado autor de Alguma poesia e Brejo das Almas. No outro canto do ringue, Sérgio Buarque de Holanda, dali a pouco autor de Raízes do Brasil. Não tendo a moça ficado com algum deles, puderam os dois cerzir uma camaradagem que seria vitalícia.

Muitos outros prosadores e poetas, estrelas de variada grandeza e mesmo asteroides, em algum momento abandonaram pena & lira em favor de desaforo & soco. Pelo menos um, que eu saiba, sacou argumento de grosso calibre: o poetastro que num boteco de Belo Horizonte, nos anos 1940, esticou a orelha (imagino que peluda) para a mesa ao lado, onde escribas ainda implumes - a turma do Fernando Sabino, do Paulo Mendes Campos, do Otto Lara e do Hélio Pellegrino - deliberavam sobre quem seria o maior poeta brasileiro. Mal deram cabo do primeiro chope e coroaram, por unanimidade, o "poetinha de merda" da história anterior.

Foi aí que o dono da orelha pediu licença para se juntar aos moços. Tomou assento, puxou um revólver e decretou: "Meus caros jovens, os senhores dispõem do prazo improrrogável de 10 minutos para mudarem de opinião. O maior poeta do Brasil é Alphonsus de Guimaraens." Dez minutos? Os rapazes não precisaram de 30 segundos para reavaliar o voto dado em Drummond.

Feliz ou infelizmente, no mais das vezes as desavenças entre escritores se limitam ao toma lá dá cá das ofensas, com maior ou menor grau de elaboração literária. Em matéria de jogo bruto, é conhecido o caso, no começo do século passado, da ripada que o cronista Antônio Torres desferiu no lombo adiposo do colega João do Rio ao chamá-lo de "manta de toucinho com dois olhos", dotada de "beiçorra etiópica" e "prognatismo camítico".

Em algum momento de 1929, Oswald de Andrade teria se referido a Mário de Andrade, num artigo, como "Boneca de piche" - para bom e mau entendedor, bicha preta -, não deixando ao antigo companheiro de aventura modernista outra saída senão romper com ele para todo o sempre. O que não impediu Oswald de seguir perpetrando maldades contra o autor de Macunaíma. No Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo, do qual Mário foi diretor até 1938, circulava um jovem músico, guapo e varonil, cujo sorriso era comprometido por dentes estragados. Um dia, conta-se, o rapaz apareceu com uma coruscante, panorâmica dentadura - e Oswald não resistiu: "Essa foi o Mário que pagou, para o fulano morder a nuca dele".

À minha geração, nos anos 1960, tocou o espetáculo bem menos divertido do pugilato retórico de duas turmas paulistanas, a dos poetas concretos, entrincheirados na revista Invenção, e a de Mário Chamie, na Práxis. Um bate-boca de vereadores das letras? Havia também quem visse naquela troca de tabefes verbais um duelo de gigantes. Alguém, salvo engano Augusto de Campos, Haroldo de Campos ou Décio Pignatari, fundiu três cuteladas num neologismo sob medida para os inimigos: "hermarxfreuditas". No lado oposto, Mário Chamie atacou de "nasista", com S, em alusão ao avultado apêndice nasal de Pignatari. Na boca dos "Irmãos Campi", como disse alguém, o Lavra Lavra de Chamie virou "Ladra Ladra". Às vezes penso que o espetáculo teria sido mais interessante se uns e outros tivessem saído no braço, como Drummond e Sérgio Buarque, até para provar que o pessoal não era prosa. Era poesia. Mas ficaram naquilo - nada de concreto.

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