Baderna, dança que se costura com rituais

Roda de samba com jeito de casa de santo. Pancada firme, que faz do tambor um guia para conduzir o que virá. Distorção da voz irradiando a ambivalência do masculino-feminino. Coquetel potente, que traz uma figura pouco conhecida do século 19, a bailarina italiana Maria Baderna, para batizar essa obra. Baderna, do Núcleo Luis Ferron, volta para uma rápida temporada de 8 a 11 de abril no Centro Cultural Rio Verde, onde estreou, em SP. Vale conhecer esse jeito singular de costurar dança, performance, música, canto e religiosidade sem perder nenhum de seus fios, pois se trata de uma inauguração que merece ser celebrada na cena paulistana. Ará-Ô!

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2012 | 03h08

O que mais interessa da Maria Baderna que o espetáculo traz de volta, é o subtítulo do livro que Silvério Corvisieri lhe dedicou em 1998, aqui traduzido pela Record em 2001: "A bailarina de dois mundos." Pois que ela foi prima ballerina assoluta no Scala de Milão, e tornou-se a "rainha da dança" do Teatro São Pedro de Alcântara, no Rio, onde dançou pela primeira vez em 29 de setembro de 1849. Aluna do mestre de balé Carlo Blasis, transformou-se em uma comoção popular porque incorporou os movimentos do baixo ventre dos lundus e dos batuques que aprendera com os escravos que dançavam no Largo da Carioca. Por instaurar a libido no palco imperial, foi execrada pelos que faziam do folhetinista Paranhos, do Jornal do Commercio, a sua voz.

É justamente esse tipo de trânsito entre mundos diversos que mais importa nesta obra que Luis Ferron concebeu e dirigiu. Permanecendo no ambiente do samba, que já havia focado no excelente espetáculo anterior Sapatos Brancos (2011), através das figuras do mestre-sala e da porta-bandeira, ele agora o expande, demonstrando que sabe como fazer das misturas o seu assunto. São os tambores que regem os encontros de agora, mas o que os costura é o convite afetuoso a cada um que participa (pois a relação com o público se dá para além do assistir, mesmo sem o uso do recurso habitualmente problemático da interatividade).

O modo como o espaço se apresenta, sem separar quem vê de quem faz, funciona como um mapa desta Baderna. As lugarizações iniciais não se preservam ao longo do espetáculo, pois os deslocamentos constantes dos cinco intérpretes ficam redesenhando novos territórios, que vão produzindo a necessidade de buscar os melhores pontos de onde avistar o que se passa. Instaura-se um jogo sem caminhos determinados, de transições suaves, do qual não escapam nem as paredes. Cada deslocamento se transforma em uma nova fresta, por onde se vê pela primeira vez o que já parecia ter sido visto.

A diversidade prolifera em todas as direções. Nos corpos de cada um deles, com habilidades específicas da maior competência; na qualidade das metáforas sobre o que tem sido varrido para baixo do tapete da dança contemporânea: competição como valor de uso, preconceitos como valor de troca, ausência das culturas populares.

Esta Baderna, verdadeiro carro abre-alas de um cortejo ao qual devemos todos aderir, vai derrubando os muros bem-comportados que escondem o silenciamento dos traços afro-brasileiros na dança contemporânea que se produz por aqui.

Do seu jorro celebratório, montado com uma metodologia DJ, espoca uma referência ao Café Müller, de Pina Bausch. Essa preciosidade exemplifica que o tipo de articulação entre as cenas é o de um ritual que transforma todos em convivas. Alyson Santos, Maurici Brasil (que já estava em Sapatos Brancos), Mauricio Bade e Teo Ponciani são os guardiães que se juntam a Luis Ferron nos cruzamentos entre ogans, batuqueiros, dançarinos, passistas, hip hop, candomblé, jongo, umbigada, congada e umbanda. Esta Baderna é uma clareira para se pensar a relação da dança com o lugar onde ela é feita. Nem dá vontade de ir embora, quando ela acaba. Porque ela, na verdade, está justamente começando um novo caminho. Ará-Ô!

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