Bach uniu Brubeck e João Carlos Martins

O maestro e pianista brasileiro João Carlos Martins estava na maior cidade do Alasca, Anchorage, em 1970, tocando as partitas de Bach, quando alguém lhe avisou, no intervalo, que Dave Brubeck se encontrava na plateia. Como homenagem a um dos seus pianistas prediletos, Martins tocou ao final do concerto Thank You, tributo ao compositor polonês Chopin composto por Brubeck- "ele diz que toquei Blue Rondo à la Turk, mas foi Thank You mesmo", assegura o brasileiro, seu amigo há 40 anos.

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

Brubeck, pioneiro no uso da linguagem contrapontística de Bach adaptada à sintaxe jazzística - bem antes do pianista francês Jacques Loussier -, sabia que estava diante de um grande intérprete de Bach. Não resistiu. Levou toda a família para cumprimentar Martins no camarim. E fez um elogio até hoje rememorado com grande orgulho pelo pianista: "O seu Bach é tão enérgico que tive de mandar meus filhos pararem de bater os pés no chão para o acompanhar, como se fosse jazz" (quatro de seus seis filhos se tornaram músicos profissionais: Darius é pianista, Dan, percussionista, Matthew, violoncelista e Chis, multi-instrumentista).

De Anchorage para Nova York, Brubeck jamais perdeu um concerto de Martins nos EUA, isso até os dois acidentes que comprometeram os movimentos das mãos do brasileiro - o primeiro durante uma partida de futebol no Central Park e o segundo num assalto na Bulgária. Espírito forte, Martins não se entregou. Voltou ao Carnegie Hall, que pisou pela primeira vez aos 20 anos, desta vez como maestro, em 2008. Brubeck observa, orgulhoso, que essa determinação é uma característica que divide com o amigo.

A notável dedicação à música e a Bach fez com que se reencontrassem em outubro de 2009, no Lincoln Center. Brubeck apresentou uma nova versão de Brandenburg Gate, composta após sua viagem a Berlim Oriental, em 1958, tocando depois com Martins a peça que os tornou amigos, Thank You. Martins conta que todos os presidentes americanos adoram Brubeck, inclusive Obama. "Aos 10 anos, Obama ganhou do pai, em Honolulu, uma bola e um ingresso para um concerto do Dave", conta. "Ele guarda o bilhete até hoje".

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