Bach teria adorado

Filarmônica de Berlim e Simon Rattle gravam versão encenada da monumental Paixão Segundo São Mateus

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2012 | 03h07

Quando apresentou a Paixão Segundo São Mateus em 1829 na sala de concertos da Academia de Canto de Berlim, Félix Mendelssohn "inventou" o conceito de música clássica. Depois de um século esquecida, a execução da Paixão não marcou só o reaparecimento da figura de Bach como compositor na cena pública - ela foi a primeira obra musical deliberadamente trazida de volta à circulação porque era genial demais para ser esquecida.

É possível que Bach tenha tido consciência da importância desta Paixão. Ele cuidou do manuscrito com um cuidado fora do comum. A tradição de executar uma paixão na sexta-feira santa era recentíssima em Leipzig, instituída só sete anos antes: a primeira execução da São Mateus aconteceu no dia 11 de março de 1727. Quase duas vezes maior que as demais as de São João e Marcos, a paixão possui 68 partes, entre árias, duetos, coros e música instrumental. O libreto de Picander combina dois capítulos do evangelho de São Mateus com poemas livres e hinos/corais bem conhecidos dos fiéis. Isso criava uma "liga" fortíssima entre a música e a congregação.

Como reproduzir hoje esta comunhão entre palco e plateia? Desde o célebre concerto de Mendelssohn, a paixão despregou-se de sua função litúrgica e foi levada às salas de concerto. Transformou-se num mamute de mais de 3 horas de duração, com coro, solistas e orquestra sempre estáticos e imóveis. Sabemos que estamos diante de um verdadeiro testamento espiritual e religioso do maior compositor de todos os tempos.

É uma grandeza tamanha que nos afasta da obra. Mas o verdadeiro milagre de nos reaproximar dela em pleno século 21 aconteceu na noite de 11 de abril de 2010 na Philharmonie de Berlim. Quem assistiu, ficou alucinado: pela primeira vez a Paixão, obra máxima da música clássica ocidental, descia de sua monumentalidade e juntava-se à plateia e aos milhares de espectadores via internet. Foi como se o maestro Simon Rattle, a Filarmônica de Berlim, um elenco estelar de solistas, os dois coros e o coro infantil nos tivessem dado o privilégio de viajar no tempo e sentar-se num dos bancos da Igreja de São Tomás, em Leipzig, naquela tarde de 1727.

Agora, com o lançamento em dois DVDs, pelo selo da própria Filarmônica de Berlim, o milagre fica mais acessível. Um crítico disse que, se fecharmos os olhos, ainda assim estaremos diante de uma das mais emocionantes interpretações da São Mateus de todos os tempos. De fato, se não usa instrumentos de época, Rattle imprime movimentos mais rápidos, evita o vibrato excessivo e pratica uma transparência instrumental inaudita. Igualmente, todos os solistas são de altíssimo nível - Camilla Tilling, Magdalena Kozená, Topi Lehtipuu, Christian Gerhaher e Thomas Quasthoff -, assim como os coralistas, surpreendentes em sua movimentação cênica.

Mesmo assim, os autores do milagre da comunhão têm nomes: Peter Sellars e Mark Padmore. O primeiro não fez uma encenação, não teatralizou, mas sim o que chama de "ritualização". Atenção, diz o norte-americano que hoje faz as mais ousadas, originais e bem-sucedidas montagens no mundo inteiro: "não é teatro; é prece, meditação". Todos estão de preto. Todos os cantores solistas são finamente microfonados e cantam de cor.

Drama. Mas, acima de todos, está o tenor inglês Mark Padmore. Esta bem pode ter sido sua maior performance em toda a carreira. Sellars o fez encarnar o evangelista e ao mesmo tempo o próprio Cristo. Isso dá uma empatia inacreditável a este cantor superlativo, que também atua de modo impecável. Cabe-lhe dar continuidade à Paixão. As execuções modernas têm em geral um tom épico, provocando distanciamento. Com Sellars e principalmente Padmore, o drama assume o primeiro plano.

Solistas como Pahud ou Mayer saem de seus lugares e se aproximam dos cantores-personagens de modo natural. Preste atenção ao ritmo da movimentação em cena. Ela é quase sempre feita em câmara lenta, num contraste com os andamentos rápidos de Rattle. Talvez seja este o segredo da mágica operada por Peter Sellars. É, em suma, o que ele chama de "ritualização".

Esta é uma maneira efetivamente contemporânea de mostrar ao público uma das maiores obras-primas musicais da humanidade. Plenamente capaz de atrair as atenções de todo tipo de público - do adolescente plugado no iPod ao devoto. (Cá entre nós, chega de imobilismo neste tipo de concerto; isso tem nome: é acomodação.) Pergunte a qualquer pessoa quais os momentos musicais inesquecíveis de sua vida. Todos terão a resposta na ponta da língua. Eles costumam ser raros. Esta performance da Paixão concebida por Peter Sellars tem tudo para ser uma experiência musical memorável para todos que a assistirem. Bach teria adorado.

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