Bach, de volta para o futuro

Outro dia fui ver esse filme singular e forte que é Shame, e me impressionou aquela cena em que Michael Fassbender faz o seu exercício habitual de correr à noite pelas ruas de Nova York ao som da música para piano de Bach, que o artista plástico Steve McQueen, agora como diretor dessa fascinante obra cinematográfica, colocou como fundo musical. Ainda ouvida em outros momentos, a música de Bach dá ao filme - cuja temática é difícil de ser abordada - uma elegância, uma seriedade invulgar.

O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2012 | 03h09

O fato é que a música de Bach dá certo com tudo. Porém, o que mais nos espanta é sua incrível, perene modernidade. Funciona como autêntica música de hoje, mais audaciosa, mais nova do que muita pretensa música de vanguarda que se ouve por aí, algo requentado, dejá ecouté, sempre a mesma coisa desde os anos 1960. Enquanto que a música de Bach, em Shame, parece ter sido composta agora para o filme, por um compositor que vive a música de hoje, de todo dia, todo momento - aquela que Cocteau recomendava a les six.

O Barroco apreciado em seu tempo era mais o das Quatro Estações, de Vivaldi, mais leve, esboçando a melodia acompanhada do período clássico seguinte. Nada de inversões da melodia, retrógrados e outros joguinhos estruturais tão ao gosto de Bach, que estava mais voltado para o passado. Porém, espantosamente, já construindo o futuro contraponto de nosso tempo.

Ainda mais antiga e esquecida era a música rigorosamente contrapontual flamenga, que ele cultuava, mas estava em total abandono. Razão por que Bach foi, em seu tempo, famoso como organista e cravista, mas não como compositor. Estava fora de moda.

Contudo, a partir de um velho contraponto em desuso, inventava o contraponto moderno, de nosso tempo, que vamos encontrar já inteiramente definido nas Variações Goldberg, no Cravo Bem Temperado, na Oferenda Musical, dedicada a Frederico, o Grande. Realmente um compositor que esteve de volta para o futuro, como se diz por aí.

Tão longinquamente vamos encontrar no contraponto bachiano um cruzamento de vozes que sugere a politonalidade moderna, tamanha é sua complexidade. E sobretudo nos prelúdios do Cravo Bem Temperado Bach esboça a harmonia moderna do Romantismo, de Chopin e Liszt. Aquela gostosura dos acordes de sétimas, nonas, que o Romantismo vai criar, já está presente na música de Bach, ainda como resultado das audazes combinações contrapontuais, das durezas como que expressionistas das falsas relações entre as vozes, tão ao gosto do Barroco inicial, que ele curtia.

Suas deliciosas progressões, principalmente de sétimas diminuídas, mais o processo de desenvolvimento por repetição encantatória dos motivos musicais, esboçam o minimalismo de nossos dias. Admirável seu poder de comunicação, de arrastar o ouvinte emocionalmente, como a música popular faz hoje com grandes audiências. Pela simples força de sua beleza, da emoção estética que ela produz no ouvinte. Coisa que a música erudita de hoje perdeu completamente.

Tanto que têm sido feitas aproximações entre Bach e o jazz, principalmente. Foi muito badalada, tempos atrás, a popularização de sua música feita pelo grupo vocal francês Les Single Singers, que Luciano Berio chegou a usar na gravação de sua famosa Sinfonia. É difícil fazer o mesmo com um outro compositor erudito. A música de Bach se abre a possibilidades até quase de ser transformada em outra música, ser "arranjada" com outros instrumentos, como fazem alguns grupos instrumentais para ballet moderno.

A música de Bach dignifica, eleva o ouvinte, como dignificou o filme Shame, que sem sua música não seria o mesmo. E se você não acredita em Deus, periga de ficar tocado, ao ouvir Jesus Alegria dos Homens em sua versão original, completa, para grupo instrumental e vozes, último coral da Cantata BWV 147, Herz und Mund und Taten und Leben (livremente traduzido, coração e voz divina conduzindo nossas ações e nossa vida).

Bach ilustra bem aquela notável sacada de Jean-Luc Godard : o artista não tem direitos, tem obrigações. Sua obrigação era somente com Deus, a quem dedicou toda sua música.

Gilberto Mendes

& Erudito

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