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Babilônias, novas e velhas

Artigo publicado no El País, dias atrás, deu conta da existência de num novo mapa-múndi das artes e da cultura, desbancando aquele mapa conhecido, em que sobrepujam a "velha" Europa e os Estados Unidos. Segundo o autor, a pujança financeira vista em certas partes do planeta sinaliza que o melhor, e mais promissor, em termos de acervos, aquisições e exibições, passa necessariamente pelos Emirados Árabes, por potências como Rússia e China, e por emergentes como Índia, Brasil, Marrocos e Casaquistão. À primeira leitura, tive ímpeto de confiscar a bússola do jornalista espanhol: Emirados Árabes, Rússia e China, sem dúvida. Marrocos? Convulsões sociais têm impactado a vida cultural daquele país. Brasil? Ainda temos tanto a fazer... E o Casaquistão? Confere?

LAURA GREENHALGH, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2013 | 02h18

Fui conferir. No mês passado, a fina-flor da sociedade casaque se aprumou para a inauguração do Teatro de Ópera de Astana, a jovem capital da ex-república soviética independente desde 1991. O presidente Nazarbaev - a caminho de se tornar vitalício no cargo - abriu os cofres da nação, atraiu investidores locais e estrangeiros, e juntos bancaram a construção daquela que já nasce como a terceira maior casa de ópera do mundo: 1.250 lugares, 26 salas de ensaio, 60 camarins, orquestra com 120 integrantes, tecnologia cenotécnica importada da Alemanha, estrelas do canto lírico no elenco de Attila, ópera de Verdi escalada para a primeira gala, e tudo, na ponta do lápis, por 500 milhões. Para um povo que se gaba de ter domesticado cavalos, merecida recompensa - e digo isso sem ironia.

A economia do Casaquistão vem crescendo ano após ano, o que se reflete no mercado das artes. Mas nada comparável ao boom cultural chinês, nem à opulência vista nos emirados do Golfo Pérsico. Aqui a conversa é das mil e uma noites. Só para ficar no Catar, com inesgotáveis reservas de gás e um emir (hoje sucedido pelo filho) disposto a ser o maior comprador de arte do mundo, o que se tem é uma sucessão de magníficas e novíssimas instituições culturais a partir de 2008, ano da inauguração do Museu Islâmico, em Doha - projeto do arquiteto sino-americano I. M. Pei, o mesmo da pirâmide do Louvre. Já em 2010, foi a vez do Museu de Arte Moderna, também um marco; e, em 2014, abrem-se as portas do Museu Nacional do Catar, projeto de outra grife da arquitetura contemporânea, o francês Jean Nouvel.

E assim arquitetos disputados, caros e invariavelmente detentores de um Pritzker Prize vão se revezando em portentosos projetos: em 2015, Nouvel entrega nada menos que o Louvre de Abu Dabi; em 2016, o britânico Norman Foster conclui o Museu Nacional no mesmo emirado; sofrerá a concorrência, ali na sua vizinhança, do maior Guggenheim do mundo, projeto do americano Frank Gehry; e das pranchetas de Tadao Ando e Zaha Hadid saem desenhos para Saadiyat, ilha artificial que será uma Meca das artes. Conta-se no cronômetro por quanto tempo o Museu do Prado ainda vai resistir a ter sua franquia numa dessas babilônias financiadas a petrodólar, ouro e diamantes.

Sim, deu a louca no mapa-múndi das artes. Revolução copérnica, movida a formidáveis fluxos de capital. Só para abrir mão da exclusividade da marca Louvre, os franceses embolsaram 400 milhões. Para dar uma ideia da bolada, o projeto de Nouvel para a filial árabe ficou em 500 milhões. Além da marca, o emirado fechou acordo que o permite hospedar obras-primas da sede do museu, em Paris. Querem mais? A sheika Mayassa Bint Hamed Bin Khalifa Al Thani, filha do emir e da bonitona Mozah Bin Nasser, que preside a poderosíssima Qatar Foundation, fez-se aos 30 anos uma imperadora das artes, para absolutista francês algum botar defeito. Além de semear museus de última geração, a cultivée Mayassa bateu o pé e fez o pai contribuir do próprio bolso com um de seus acervos em formação. Resultado: ganhou a tela O Jogador de Cartas, de Cézanne, arrematada por 191 milhões.

Agora, mapa-múndi que é mapa-múndi tem de tudo, portanto, devemos voltar os olhos para outras partes do planeta. Diante da movimentação feérica e estratosférica dos emirados, não consigo deixar de pensar na escuridão cultural que as guerras trouxeram para o Oriente Médio. Simplesmente porque não haverá no mundo emir, sheik, sultão, hedge funder ou magnata da internet capaz de recuperar o estrago já feito, aquilo que os militares americanos eufemisticamente definem como collateral damage. Tomemos o Iraque como exemplo.

A Operação Tempestade no Deserto, cinematográfica ofensiva americana da primeira Guerra do Golfo, abriu um rastro de destruição. Segundo estudo da Universidade do Colorado, até 1990, o patrimônio artístico-cultural iraquiano era reconhecidamente bem manejado por arqueólogos locais, filiados ao Museu Nacional, em Bagdá. Gente formada no estrangeiro, por grandes mestres. O país também dispunha de leis que permitiam um programa permanente, e seguro, de escavações. Isso, até o primeiro ataque aéreo. A partir daí, perde-se parte do Arco de Ctesiphon, maravilha arquitetônica do século 4, cessa a escavação de Tell al-Lahm, centro caldeu do século 6 a.C., bombas desfiguram o Grande Zigurate de Ur, cujas paredes foram escavadas por sir Leonard Woolley, nos anos 1920, some quase toda a documentação otomana e hashemita da Biblioteca Nacional, na capital iraquiana, assim como as coleções de manuscritos, mapas e fotografias, e um verdadeiro tesouro em obras trazidas ao Iraque, quando da invasão do Kuwait, também se dispersa.

Donald Rumsfeld, ex-secretário americano da Defesa, disse na época: "Não houve devastação cultural". Pois o senhor da guerra foi contestado em seu próprio país. E o que veio depois das bombas? O caos, que não convive bem nem com a arte, nem com a cultura. O patrimônio continuou a ser pilhado por gente faminta, sem emprego, capaz de roubar e vender uma relíquia de Sifr para ir ao mercado comprar leite. Ou gente que se associou a mafiosos contrabandistas de arte, responsáveis pelo súbito aparecimento de peças tão raras nos leilões da Sotheby's e da Christie's, em Londres. Foi por esse circuito, o dos leilões, que se incorporou ao acervo do Miho Museum, de Kioto, um baixo-relevo saqueado do palácio real de Nimrud. Mas os japoneses tiveram que pagar por ele US$ 12 milhões.

Não tenho dúvida de que esse esplendor artístico da Mesopotâmia haverá de rechear moderníssimos museus dos emirados. Isso é tão certo quanto a constatação de que pilhar sempre foi verbo conjugado no mundo das artes. Mas, nem por isso haveremos de aceitar a valorização do gênio humano apenas em termos mercadológicos. Valorização desprovida de elos históricos e civilizatórios, tendo atrás de si tão somente a terra arrasada.

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