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Lúcia Guimarães
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Avó em campanha

São Pedro cooperou. O sol saiu e a temperatura era amena. O cenário era sob medida para propaganda eleitoral. Hillary Clinton, emoldurada por uma visão de cartão postal de Manhattan, lançou sua campanha para ser “a mais jovem avó eleita presidente dos Estados Unidos”. A frase é uma referência ao sarcasmo dos críticos sobre os seus 67 anos.Mas, espere, ela já não havia lançado a campanha? Sim, há dois meses, num vídeo online. O segundo lançamento, no parque da Ilha Roosevelt, foi para revelar ao país o que não era preciso ser meteorologista político para prever: a Hillary que volta a fazer campanha chega embalada numa mensagem populista. E, como São Pedro, vai ter que negar Jesus, quer dizer, Bill Clinton, algumas vezes. Mas não havia dissonância no evento de sábado, orquestrado nos menores detalhes.Jornalistas foram monitorados por seguranças e alertados para não se misturar ao povo. A imprensa aqui tem uma bronca séria com a candidata, que se recusa a dar entrevistas desde o tal vídeo em abril. Enquanto escrevo, ela está em Iowa e promete falar com a imprensa local. Mesmo quando marca encontro com pequenos grupos de eleitores, numa lanchonete ou sala de visitas, Hillary acaba transmitindo a impressão do excesso de orquestração e controle. O discurso de sábado revelou mais sobre uma agenda política do que qualquer outro já feito por candidatos republicanos. Hillary prometeu tirar a classe média do funk do qual não sai, mesmo com a recuperação estatística da grande recessão que começou com o crash de 2008. Seria difícil, nos anos 1990, imaginar a mulher do presidente que empregou Tico e Teco, Robert Rubin e Lawrence Summers, a dupla de secretários do Tesouro que facilitou a farra obscena de Wall Street pré-crash, usando a linguagem que ouvimos no comício. Ela mencionou “hedge-fund” múltiplas vezes: “Enquanto muitos de vocês têm que trabalhar em mais de um emprego para conseguir se sustentar, os gestores dos 25 maiores hedge-funds ganham mais do que todos os professores de jardim de infância do país juntos.” Não se perde aqui a ironia da denúncia feita por uma candidata que, dizem analistas, poderia levantar até US $ 2 bilhões para tentar chegar à Casa Branca.A estreante avó de Charlotte, de oito meses, falou de sua neta e exaltou a influência de sua mãe, que morreu em 2011. Mas é difícil ouvir qualquer história pessoal de Hillary sem imaginar que foi roteirizada por outra pessoa. É claro que discurso de candidato é escrito por outros. O problema é que Hillary faz a gente imaginar o recheio usado na fabricação da salsicha.Como a disciplinada e realista que é, Hillary tocou nos pontos hoje caros aos eleitores que preferiram Obama em 2008. Fez duas promessas diretamente ligadas à herança da segregação racial – acabar com o encarceramento em massa e a erosão, via leis estaduais, do acesso de eleitores às urnas. Ofereceu aos latinos que Obama decepcionou um tratamento melhor, um caminho para a cidadania americana. Para quem chegou a ter status de rock star quando Secretária de Estado, ela mal tocou em política externa, talvez evitando lembrar o fiasco do ataque ao consulado americano em Bengazi na Líbia, e por ter votado, quando senadora, a favor do que hoje equivale a um pecado original, a guerra no Iraque. Obama votou contra.Numa quebra de silêncio que surpreendeu no domingo, Hillary mostrou que se dispõe a bater logo de frente com Obama num tema traiçoeiro – o acordo de livre comércio batizado de Parceria Transpacífica. A esquerda Democrata assumiu a liderança do debate sobre a negociação e pede ao público para não cair no conto do comércio livre que fecha indústrias, desemprega e emporcalha o meio ambiente. Em Iowa, ela disse que defende uma negociação dura que proteja os interesses dos trabalhadores americanos ou não deve haver acordo.A estreia da candidata foi rica em simbolismo e pobre em eloquência. Uma comentarista qualificou o discurso como “agressivamente pedestre.” Obama é o rei da oratória. Por isso mesmo, é possível que o eleitor de 2016 prefira um Fusca a uma Ferrari verbal.

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