Avô e cercado de jovens, Baryshnikov volta a dançar no País

Em plena forma, bailarino russo se apresenta em São Paulo, no Rio e em Joinville

Agencia Estado

02 de julho de 2007 | 08h56

Mikhail Baryshnikov, aos 59 anos,volta ao Brasil, onde dançou em 1998, um espetáculo-solo. Destavez, com sua nova companhia, a Hell’s Kitchen Dance, que acabade estrear em Nova York, depois de bem-sucedida turnê pelosEstados Unidos. Criada em 2006 e formada, na sua maioria, porjovens estudantes da Julliard School e da Tisch School, encerraa sua mini temporada brasileira, a cargo da Antares Promoções,com dois espetáculos no Teatro Municipal de São Paulo, dias 24 e25 de julho, depois de se apresentar no Municipal do Rio (dia20) e em Joinville (dia 18). O programa é composto por trêsobras: Years Later, de Benjamin Millepied, Leap to Tall, deDonna Uchizono, e Come in, de Aszure Barton.Antes de pedir asilo político em Toronto, no Canadá, em 1974,durante uma turnê da companhia em que dançava, o Kirov Ballet, oseu talento já era reconhecido. Mas a projeção internacional queobteve com a carreira que desenvolveu nos Estados Unidos fezdele uma quase lenda. Lá, dançou no American Ballet Theater(1974 -1979), companhia da qual depois se tornou diretor, etambém no New York City Ballet. Fez cinema (Momento de Decisão, em 1977, e O Sol daMeia-Noite, em 1986), fez teatro na Broadway (a peçaMetamorfose, de Kafka). Teve problemas com o joelho, deixou dedançar os clássicos que o consagraram e tornou-se um difusor dadança contemporânea. Na companhia que criou com Mark Morris, aWhite Oak (1990-2002), encenou muito do repertório da JudsonChurch, o berço da pós-modernidade norte-americana, e estimuloujovens coreógrafos. O compromisso com os novos talentosdilatou-se na companhia que agora dirige.Baryshnikov falou por telefone do centro que planejava criardesde 2001, e que conseguiu inaugurar em 2005, em Manhattan, oBaryshnikov Arts Center (BAC). Situado na região conhecida comoHell’s Kitchen, a que se estende entre as Ruas 34 e 57, e entrea Oitava Avenida e o Rio Hudson, localiza-se no complexo 37 Arts, no 450W da Rua 37. Foi com o nome da região onde está instaladaque a companhia foi batizada. Qual a diferença entre a sua outra companhia, a WhiteOak, que tinha a proposta de dançar os clássicos dacontemporaneidade, e a Hell’s Kitchen? "mesmo dois tipos de companhias distintas. A WhiteOak era uma companhia permanente e o elenco agora é formadoquase que exclusivamente por jovens muito talentosos que aindaestão terminando sua formação nas suas escolas, a Juilliard e aTisch. Como eles são ainda estudantes, ensaiamos nos seushorários de folga, e só conseguimos viajar e fazer temporada noverão, época das férias escolares. Há um outro traço também, queé o fato de ela dançar obras criadas no Centro, seja porcoreógrafos que fizeram residência aqui, como Benjamin Millepied, o grande solista do New York City Ballet, ou peças que produzoaqui, como as de Aszure Barton (Come in) e Donna Uchizono (Leapto Tall), que estreamos no ano passado. Para quem já dançou com estrelas de todos os tipos dedança, como é dançar cercado por jovens promissores? "Gosto muito de dançar com os jovens. Ajuda a diminuir aseparação entre gerações e também faz parte dos objetivos quetenho com a minha fundação. Quero tentar ajudar jovens artistasa vencer em Nova York, sejam da dança, do teatro, da música, dasartes visuais, do cinema ou do design." Como esses jovens talentosos chegam à companhia? Quando são estudantes, as informações vêm das escolas edos professores. Mas todos fazem audição para entrar. Ainda é mesmo necessário fazer aula todo dia? Sim, especialmente quando estou em cena, como agora. Àsvezes, ensaio com a companhia, às vezes, sozinho. Depende de osmeus horários combinarem com os deles. Às vezes, vou fazer aulano New York City Ballet e noutras, simplesmente entro na aula deum desses professores que você paga por aula. Na minha idade ecom a minha experiência, não penso que ainda vou aprender algo.O que busco é manter uma certa condição física. Por isso, aindafaço aula de balé, mas também invisto muitas horas emfisioterapia para cuidar de elasticidade, flexibilidade,alongamento, etc. Foi muito difícil enfrentar os problemas com o joelhoque terminaram em cirurgias? Tive muita sorte em poder ser atendido por médicosmuito bons, que souberam cuidar de mim com tanta competência queconsegui continuar mantendo o meu padrão, que é fazer tudo 100%.Afinal, já faz tempo que não faço mais variações clássicas, emque é necessário saltar muito. Essa cifra, a dos 100%, o acompanha há muito tempo. Hádeclarações suas dizendo que quando adolescente, já sabia que,fosse o que fosse que viria a fazer quando adulto, trabalhariapara ser 100% bom. Bem mais tarde, quando foi pai, passou adizer que tinha como objetivo ser 100% pai. (Rindo) É verdade. Sou um Baryshnikov 200%. E agora vouprecisar também ser 100% avô das minhas duas netas, uma com 2 eoutra com 4 anos. Com uma agenda como a sua, sobra tempo para ser avô? Como minhas netas não moram longe de mim, consigo, sim,conviver com elas, pois passo o dia todo no Centro. Ser avô émesmo como dizem: todos os prazeres e nenhuma dasresponsabilidades. Também faz parte dessa agenda sair de casa para assistirdança? Assisto muita dança contemporânea, é o que mais faço.Sigo a carreira de muitos dos coreógrafos de downtown(referindo-se à dança do circuito off), e também acompanho osprocessos de todos que vêm para residência no Centro. E da Europa? Tenho interesse em variados criadores, especialmente naFrança e na Inglaterra. Dentre os mais conhecidos, há o Mats Ek,que vai compor um dueto que dançarei com Ana Laguna. Estrearemosno fim do verão. A fotografia ainda o interessa? Sim, e muito. Durante muitos anos fotografei empreto-e-branco com a mesma câmera de 35 mm e o que me atraíaeram fotos do cotidiano e fotos de viagem. Faz pouco tempo,comecei a fotografar movimento e dança, diferentes tipos dedança. Alguma companhia em especial? Algum bailarino? Estou começando um projeto com Merce (refere-se a MerceCunningham), que se chamará Merce My Way (Merce do Meu Jeito).Tenho ido ao seu estúdio para fotografá-lo trabalhando. A idéiaé que se transforme em um livro, no próximo ano. Merce Cunningham e Trisha Brown fazem parte do seupercurso. Certa vez, enquanto ensaiava no estúdio de Trishajustamente uma coreografia de Cunningham, a Occasion Piece,aconteceu uma conversa entre vocês dois, que acabou sendopublicada por Annette Grant no New York Times, em 1999, naforma de uma entrevista sua para a Trisha. Havia uma declaraçãosua dizendo que havia sido necessário muito tempo para queaprendesse a separar dança de coreografia. Quanto mais danço, mais entendo que a dança temsegredos. Quem é que consegue explicar por que uma obra funcionamelhor do que a outra, por exemplo? Para mim, é sempre ummistério. A dança continua sendo misteriosa e, quanto maior oenigma, maior a atração. E quanto menos entendo, mais atraenteela fica. A sua discrição com relação às doações que vem fazendo,ao longo de sua carreira, é notória. Agora elas se concentraramna criação desse Centro que tem seu nome, o Baryshnikov ArtsCenter (BAC)? Na verdade, ainda não pensei sobre isso. Meu desejo écontribuir com a cidade, foi isso que me moveu. Nova York foisempre excepcional em termos de arte, e quero muito ajudar essacidade a continuar a ser assim. Foi isso que me fez criar o BAC Você conhece o evento de Joinville onde vai seapresentar? Muito pouco. Sei somente de alguns nomes que já seapresentaram lá. Mas estou muito animado em voltar ao Brasil,pois guardo recordações de bons amigos que fiz por lá, queespero reencontrar, e das platéias, sempre muito calorosas.Estou muito curioso em ver qual será a recepção ao trabalho quefaço agora.

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