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Aves raras

De perto ninguém é normal, disse o Caetano. Mas tem gente que exagera na bizarrice

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

13 Novembro 2018 | 02h00

Cada doido com sua mania – ou, como disse o Caetano: de perto ninguém é normal. Mas alguns, empencados de manias, passam da conta. Como duas aves raras que o alçapão do cronista capturou para você.

Dona Odete, mulher para-a-frente. Contra todas as evidências, dona Odete se considera uma pessoa avançada.

“Sou para-a-frente!”, vem ela se gabando, em seu português castiço, desde as profundezas dos anos 70, quando se usava chamar de “pra frente” ou “prafrentex” gente ou coisa moderninha.

Quanto mais o tempo passa, mais “para-a-frente” se acha dona Odete. E não se avexa quando, na conversa, algum anacronismo vem devolvê-la às teias de aranha de sua Idade Média. Dia desses, numa roda, cometeu a imprudência de ressuscitar o creme Rinse, causando pasmo semelhante ao que provocaria a passagem de um Ford Bigode pelas ruas de hoje. Mas quem sabe dona Odete, em seu insopitável vanguardismo, na realidade não quis antecipar o retorno de algo que julgávamos para sempre enxaguado e tragado pelo ralo da História? Sim, quem sabe não vem aí, depois da brilhantina, um’outra volta, do tipo “Nos tempos do creme Rinse”?

Não seria a primeira vez que dona Odete entraria em moda, até por força do tal movimento pendular da História. A palavra “bacana”, por exemplo, proscrita durante décadas como antiqualha, não veio a ter uma nova encarnação em lábios juvenis no século 21?

Não só juvenis. Os amigos sabem que dona Odete sempre foi bacana, mesmo no tempo em que o adjetivo gramou seu exílio verbal. Supimpa. De truz. Do balacobaco. Moderna — palavra talvez insuficiente para exprimir toda a sua capacidade de adaptação aos tempos. Perto de dona Odete, se bobear, a modernidade chega a soar como velharia.

Ela se orgulha de ter mente aberta, escancarada mesmo, diante das tais minorias, cujo direito de existir até aceita. “Não tolero a intolerância”, pontifica entre as amigas, todas elas, cá pra nós, portadoras de mentalidades que não evoluíram.

Se dona Odete se refere aos homossexuais como anormais, invertidos ou pederastas, é porque tais rótulos lhe soam menos ofensivos que bicha, veado ou boiola. Faz questão de deixar claro que nada tem contra “essas pobres criaturas” – e, magnânima, pinga piedosas reticências: “Para mim, são todos filhos de Deus...” Nada contra os pretos, igualmente. Se até hoje só teve empregadas brancas, esclarece, “foi mera questão de sorte”.

Sua sala de visitas é adornada com gravuras de flores, porque flor, para dona Odete, vem a ser a quintessência da delicadeza. Mas em suas paredes a estrela pictórica não é flor, e sim uma tela pintada com “bastante tinta, sem economia mesquinha”, na qual uma estradinha serpenteia rumo a uma choupana ladeada por um ipê florido e um regato de águas cristalinas. Em relação à arte moderna, dona Odete, por não ser retrógrada, evita dizer que um rabo de burro lambrecado de tinta faria igual; apenas não vê sentido em distorcer grotescamente as belezas que Deus criou. “Tem necessidade?”, indaga ela em tom persuasivo.

Nos anos 70, dona Odete entendia como ninguém daquilo que chamou de “hippismo”, montada na autoridade de quem viu o filho da melhor amiga “entrar para hippie”. Mulher para-a-frente que já era, um dia me entreteve com seus conhecimentos híppicos. “Primeiro, eles vão para Ouro Preto”, explicou, sem descontinuar o crochê. A etapa seguinte, espécie de mestrado, deveria ser vivida em regime comunitário “naquela praia baiana, como é mesmo o nome?”. E havia também, claro, um doutorado: “Quando já estão bons, eles vão para a Índia”.

Pelo menos foi esse o percurso geográfico-existencial do tal moço que ela viu entrar para hippie. “Excelente rapaz”, suspira dona Odete, “pena que não larga aquela coisa, aqueles copos e copos de maconha!”

Batendo em todas as teclas. Já este outro, o dr. Ovídio Carlos, tem horror a mesquinharias. Arrepia-se inteiro à simples ideia de aproveitar resto do que quer que seja. Nenhum espetáculo humano é mais desprezível, sentencia, do que uma criatura aplicando toda a força dos polegares para extrair o que ainda possa jazer no exaurido tubo de pasta de dente. No escritório, já apostrofou um colega flagrado na operação de esquentar a ponta da esferográfica, a fim de amolecer a tinta e ordenhar a última gotícula. Tem seu desprezo aquele que, de garfo em punho, caça no prato o petit-pois remanescente, o derradeiro grão de arroz.

Aos desavisados, suas implicâncias podem dar a impressão de que se trata de um ricaço. Quem lhe dera! O saldo bancário é de classe média, tendendo a média-baixa – mas à mesa, na penúltima garfada, sua etiqueta manda enjeitar alguma coisa, qualquer uma, ainda que seja o último naco de camarão, num gesto que, além de desapego, a seu ver denota finura, elegância, berço, enfim.

Num apertado final de mês, o dr. Ovídio Carlos até admite encarar um mexidinho, desde que não haja estranhos à mesa e que a gororoba não se faça à base de sobras de refeições pretéritas: exige que se cozinhe em separado cada componente dessa “mixórdia à brasileira”, para só então misturar.

Não lhe falta razão, sejamos justos, quando reage ao que tem na conta de avareza, pão-durismo, sovinice, somiticaria, munhequice, mácula contra a qual, como se vê, não poupa sinônimos. Aquela a irmã que anda em braille pela casa para poupar energia elétrica, que disfarça na salada a folha já meio escurecida de alface e que já foi vista lavando o coador de papel para um repeteco de café. Pior que todos, o cunhado que reutiliza o fio dental. Numa roda de jovens, vendo circular um baseado, o dr. Ovídio Carlos costuma verberar quem faça “boca de anão” – nome que dá ao esforço simiesco de sugar, franzindo os beiços, a última essência do último fiapo de erva incandescente.

Há um item em que ele se supera: é capaz de abandonar a sala de concertos, pisando duro como quem batesse bumbo, se o pianista, tendo à disposição um teclado inteiro, não usa todas as 88 teclas do instrumento – “todas as brancas e todas as negras”, exige o dr. Ovídio Carlos.

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