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Aves que ali gorjeavam

Em sua gaiola, o bicudo desatava a cantoria - mas não podia ver um guarda-chuva

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

25 de fevereiro de 2020 | 03h00

Influenciado com certeza pela memória do avô paterno, cirurgião famoso que não cheguei a conhecer, houve um dia, ali pelos 10 anos de idade, em que decidi enveredar pela medicina. Suponho que meus pais me deram força, pois durante um tempo, nas manhãs de sábado, um deles me levava até a casa do tio-avô Henrique, o grande professor Marques Lisboa, veterano da equipe de Oswaldo Cruz, para com ele tomar aulas de ciências. 

Muito aprendi ali, mas devo ter achado que não convinha ficar apenas na teoria, pois em algum momento resolvi iniciar sem mais delongas aquilo que sem dúvida haveria de ser a minha fulgurante carreira de cirurgião. Mais um pouco, talvez pensasse, e já não seria precoce, como costumam ser os verdadeiros vitoriosos nesta vida. 

Sem me dar conta do sadismo em que estava incorrendo, realizei então uma série de “cirurgias” em pardais, pacientes escolhidos por estarem mais à mão, bastando armar nos fundos da casa um dos alçapões de meu pai passarinheiro. O dr. Hugo nunca soube, mas tornou-se meu fornecedor também de anestésico, sob a forma de pequenas ampolas que eu surrupiava em seu consultório dentário. 

Nos meus procedimentos cirúrgicos, num canto de quintal, eu contava com a assistência da prima, vizinha e sobretudo parceira Sílvia, minha indispensável companheira de infância e adolescência. A ela cabia, no caso, anotar os passos da operação, conforme eu lhe ditava: “1. Depena-se o paciente” - e ia por aí a coisa. Não tardava o registro, como simples “observação”, de que “o paciente morreu” - o que de forma alguma punha termo à cirurgia.

Não ficamos nisso. No mesmo afã científico, decidimos um dia misturar tudo quanto fosse medicamento líquido da farmácia doméstica, e forçamos uma galinha a ingerir aquela poção, administrada a esguichos de conta-gotas. Como a paciente, no instante seguinte, caísse de lado, estertorante e com o bico aberto, a emitir cacarejos inauditos, julgamos prudente apagar os traços do malfeito - e atiramos a coitada num terreno baldio, na esperança de que ali morresse sem levantar suspeitas contra nós. Mas qual!

Dois dias depois, a empregada da nossa avó, cuja casa confinava com aquele ermo, descobriu ali a infeliz, ainda viva e cacarejante, agora duplamente penosa. Ninguém, no universo dos adultos, teve dúvida de quem seriam os autores do involuntário, digamos, galinhicídio. No meu currículo, a malsinada paciente ficaria sendo um dos dois galináceos que abati nesta já longa vida. O outro teve o azar de ser alvo da única flechada certeira que disparei em toda uma esquecível carreira de arqueiro, pois nas demais a seta se obstinava em partir com a ponta para o alto ou para baixo - mas isto já contei. 

*

Mais sorte tiveram outras aves lá de casa, milagrosamente a salvo do cirurgião e sua diligente auxiliar. Era o caso das dezenas de passarinhos que meu pai capturava em vários cantos de Minas Gerais, de Goiás, do Espírito Santo, sei lá de onde mais, para criar em gaiolas ou num viveiro que ele mesmo, competente carpinteiro amador, construiu no fundo do quintal. Muitas outras aves faziam ali um transitório pouso, pois seu destino, desde o início, era diverso: integravam um solitário, paciente, quixotesco projeto de repovoamento de aves imaginado e executado pelo dr. Hugo.

Espalhador de Passarinhos, como o chamei numa crônica, ele fazia catas onde houvesse fartura de determinadas espécies, para em seguida libertá-las em lugares onde sua extinção já fosse um fato consumado, ou quase. Jamais comprou ou vendeu uma só ave - mas cansou-se de recusar dinheiro gordo por seu inigualável bicudo Juvenal, tido entre os ornitólogos da época como o melhor das Minas Gerais. Lembro-me de um milionário, amigo seu, que sacou teatralmente o talão de cheque e perguntou quanto ele queria por aquele fenômeno canoro. Meu pai, de bate-pronto, encerrou o assunto com outra pergunta: como é o canto do seu cheque? Algum tempo depois, sem qualquer alarde, simplesmente soltou o Juvenal numa quebrada de Cristalina, em Goiás.

O Juvenal, exatamente, foi protagonista lá em casa de uma história divertida. Sua gaiola ficava pendurada na quina de um portal, na copa, e era ali que desatava a cantoria, tornada insuportável, às vezes, pela acústica exacerbada do ambiente. Mas podia também emudecer - “afinar”, no jargão paterno -, se alguém passasse nas proximidades com um guarda-chuva, ainda que fechado. Na copa ficava também o único aparelho telefônico da casa, preto e de parede, como então se usava - e quando o bicudo estivesse “rachando o bico” (assim dizia meu velho), não havia como conversar. Para as quatro meninas, chegava a ser problemático iniciar um trote ou paquera telefônica, sob o risco permanente de o papo ser sabotado a qualquer momento pela goela solta do Juvenal, decididamente um caso radical de bicudo que não se beija. 

A mamãe, habitualmente serena, certa vez se exasperou por não conseguir levar adiante um telefonema; catou um guarda-chuva e o abriu, fragorosamente, duas, três vezes, em direção ao Juvenal, que “afinado” ficou por alguns dias.

A dona Wanda, como este seu filho, tinha pelos bichos um amor não mais que platônico - também ela poderia ter ouvido, como ele na infância, de um empregado da fazenda, que não tinha “vocação pra animal”. Deve ter sofrido com a fartura de gaiolas que o marido espalhou pela casa. Um dia ela telefonava quando um passarinho, na gaiola a poucos palmos de sua cabeça, resolveu tomar um banho na xícara de água, e em seguida sacudir jovialmente as penas, promovendo uma chuva sobre a dona da casa - a qual, sob gargalhadas da família, foi lentamente enfiando a cabeça entre os ombros, sem uma palavra. 

Tinha talento histriônico, a minha mãe, e a ele recorreu quando um dos filhos veio informar que a araponga, tão cara a nosso pai, tinha escapado do viveiro. Foi para o quintal – e, para pasmo e gáudio gerais, se pôs a arremedar a batida seca, metálica, altíssima de uma araponga. Só não esperava que a fugitiva atendesse ao seu caricato téim! téim! téim e, deixando o muro onde pousara, baixasse de volta ao quintal, disposta a se entregar. Era o que me faltava, disse a dona Wanda, ser confundida com uma sedutora de araponga...

(Acabou-se o espaço, e mal falei das aves, e não todas, que havia na arca de Noé que era a casa onde fui menino. Posso pedir prorrogação?) 

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