Aventureiros do absoluto

Esse é o título original de mais um ótimo livro de Tzvetan Todorov, traduzido para o Brasil como A Beleza Salvará o Mundo (Difel). Essa é uma frase de Dostoievski, que Todorov não assina embaixo. Sua escolha, Les Aventuriers de l"Absolu, é mais precisa e, ora, mais bela. Mesmo assim, confesso que comecei a leitura ressabiado, pois Todorov diz que o absoluto é uma dimensão presente na vida de qualquer um, usando a palavra em vários sentidos como o infinito e o divino; mas se apressa em dizer que é um cético, não tem fé nem em deuses nem em utopias, tal como eu. O significado que adota para absoluto é o da busca desesperada pela perfeição, do sonho romântico de totalidade. Como todo grande crítico, ele usa as obras de arte para refletir sobre "como viver" e, ciente de que sobretudo em seus casos não há como não falar das biografias, toma o exemplo de três grandes artistas que, cada um a seu modo, pagaram preço alto pelo idealismo. E não há assunto mais atual, em nossa era neorromântica, em que se quer tudo pelo caminho das aparências.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

24 Abril 2011 | 00h00

Tive fase de admiração intensa pelos três escritores que Todorov analisa: o irlandês Oscar Wilde, o alemão Rainer Maria Rilke e a russa Marina Tsvetaeva. Tal fase foi na adolescência, quando é essencial sonhar com uma realização plena dos desejos da carne e do espírito, uma integração de conhecimento e felicidade que alterna jatos de entusiasmo e golpes de melancolia. Viver todas as experiências e saber todas as coisas fariam de nós seres superiores, ou pelo menos muito diferentes dos outros, mergulhados em sua rotina de compromissos e conformismos. Não apenas seríamos livres, depois de transferir toda e qualquer culpa para os pais, professores e o "sistema"; viveríamos cada dia numa espécie de êxtase contínuo. Mas as crises de identidade só cresciam em vez de sumir, e uma vida feita só de beleza e individualismo parecia mais e mais distante. Não tínhamos equipamentos intelectuais e emocionais para lidar com as frustrações. Quem não foi idealista quando jovem, no entanto, teve menos chances ainda de amadurecer. Tome cuidado com essas pessoas.

Enterrar a sensibilidade no senso comum - aceitando, por exemplo, relacionamento amoroso sem amor, trabalho estressante sem autonomia, repetição das opiniões alheias - é que está longe da solução. Wilde, Rilke e Tsvetaeva representam formas distintas de fugir a isso, ou seja, de resolver a questão que atormenta qualquer pessoa criativa, acuada pelo anjo terrível que pergunta: a obra ou a vida? Wilde quis fazer da vida uma obra de arte, sua maior obra de arte, e foi um dândi 24 horas por dia, pondo a estética acima de tudo. Caiu em desgraça pela própria boca, principalmente, e da sua obra o que mais lembramos são os aforismos, os fragmentos. Rilke, embora almejasse ser um Rodin, que vivia e criava na mesma intensidade, foi para uma opção asceta, como a de um Cézanne metafísico: trocou a vida pela arte. Terminou em depressão aguda. E Tsvetaeva alimentou o ideal dialético: conciliar os contrários, deixar que vida e obra se sustentem uma à outra, ter o melhor dos dois mundos. Acabou em suicídio.

Historiador, Todorov obviamente descreve o contexto social em que viveram, a luta de Wilde contra o puritanismo hipócrita, a de Rilke diante da chegada da democracia, a de Tsvetaeva em um coletivismo antiliberal. Mas o que importa mais é o conflito entre sua vida amorosa e a vocação literária. Há uma vaidade extremada nos três, uma necessidade doentia de ser amado. Quem preza a beleza, como qualquer grande artista, não pode querer viver sem ela no dia a dia, sem se cercar de pessoas, coisas e lugares que inspiram. Mesmo Rilke, em sua devoção ao trabalho, se apaixona por Benvenuta (um nome para lá de adequado) e estraga essa paixão não por sua obra, mas por sua dificuldade com as imperfeições inevitáveis da vida. Não se trata, portanto, de dizer simplesmente: esses artistas sofreram muito, mas sem esse sofrimento não teriam escrito o que escreveram.

Se o sofrimento determinasse a força da arte, haveria muito mais obras-primas por aí. Dos três, foi Rilke quem mais chegou aonde poucos chegaram, à realização de seu gênio, e ele o realizou no espaço de uma semana no inverno do ano lendário 1922, justamente quando vivia outra paixão, por Merline, e escreveu Elegias de Duíno e Sonetos a Orfeu. Também suas cartas, escritas no calor cotidiano e não de olho na posteridade, são geniais. Me lembro de ter lido, quando aos 14 anos comecei a escrever febrilmente (poemas, contos, cartas, ensaios, princípios de romances), sua advertência aos jovens: se você não tiver mais nada, preso e sozinho, e continuar a escrever, é porque é um escritor e nada vai tirá-lo desse caminho. O mesmo, vejo hoje, vale para os que se sentem razoavelmente felizes, apaixonados por alguém, rodeados por amigos e divertimentos, com dinheiro suficiente para não sofrer com esse problema e viajar pelo mundo, etc. - também esses sabem que são escritores se continuam a escrever de forma criativa, não como obrigação útil. Na mente, todo grande artista é solitário, e essa solidão intelectual não pode ser afastada nem mesmo pelas leituras dos gênios.

Só que o livro de Todorov não é sobre como fazer uma obra-prima; é sobre como levar uma vida mais bela, em que realismo e idealismo não se aniquilem mutuamente, e ter alguma sensação de "realização interior". Numa das muitas passagens que grifei, ele diz: "Cabe a cada um descobrir: a era das respostas coletivas foi ultrapassada, mesmo que o indivíduo possa esperar que os outros, em torno dele, compreendam e compartilhem de sua escolha. Mas já se pode dizer que, para atingir essa beleza ou essa sabedoria, não é necessário escrever ou ler livros, pintar ou admirar quadros, assim como também não se devia orar a Deus ou se prostrar diante de ídolos, construir a cidade ideal ou combater seus inimigos." Em outras palavras, não adianta fazer da estética uma religião ou utopia - e na verdade os criadores de obras-primas, como Flaubert ou Dostoievski, citados no final, levam as contradições para a obra; não as resolvem.

"Pode-se fazê-lo", receita Todorov, "contemplando o céu estrelado acima da sua cabeça ou a lei moral dentro do seu coração, desdobrando suas forças intelectuais ou se devotando a seus próximos, trabalhando em seu jardim ou construindo uma parede bem reta, preparando o jantar ou brincando com uma criança". É possível tornar a vida mais bonita de modo mais simples. O que Todorov não nota, embora a meu ver deixe explícito, é que hoje essa simplicidade parece mais distante, embora - ou por isso mesmo - muito ansiada. Como notou Christopher Lasch, vivemos numa era narcisista, egoísta, em que as pessoas sempre se põem em primeiro lugar, cada vez mais interessadas em ter e fazer o que é vistoso, confundindo isso com o belo; e em que se dizem capazes de harmonizar tudo - busca por dinheiro e status, convívio com a família, baladas viciadas, estar na moda e em forma - e veem todo dia que isso não é verdade. Daí as burradas, as depressões, a insegurança - e os remédios, terapias e esoterismos que marcam nosso tempo com seu idealismo quase patético em sua mescla de oportunismo e ingenuidade.

Querem tudo e terminam com quase nada, como os personagens de Machado de Assis - aventureiro do absoluto que só atingiu a maturidade e a genialidade quando abandonou o romantismo e entendeu a graça irônica da vida, cujas imperfeições são muito mais curiosas do que as fórmulas que pretendem eliminá-las. Escrevo este texto num chalé de amigos em Campos do Jordão, com vista para a Pedra do Baú, enquanto minha mulher e filhos dormem. Estou onde estou, e o encanto da paisagem e a energia do amor mais do que me bastam. A beleza não salvará o mundo porque seu valor não está em propor salvações. A partir daí, e com mais pessoas pensando assim, o mundo fica bem menos feio.

Por que não me ufano. Acompanhei a polêmica sem pólen causada pelo artigo de Fernando Henrique Cardoso sobre o papel da oposição pós-Lula. Para ele, o funcionalismo e o sindicalismo estão nas mãos do petismo, que assim pode chegar ao "povão" de uma forma que o PSDB não pode. O foco deveria estar na classe média educada e na emergente, que não é educada (e na maioria dos casos nem mesmo classe média é ainda), mas que tem reivindicações que vão muito além de uma bolsa assistencial e de um mero crediário, principalmente na saúde e na educação; que exigem uma classe política melhor, queda de impostos e juros, acesso à tecnologia. É uma classe que cada vez menos se contenta apenas com baixa inflação e baixo desemprego, que quer se qualificar e ser respeitada pelo poder.

É estranho que um partido de dimensão nacional, forte no Estado mais rico do País, tenha de optar por um discurso restritivo, logo facilmente explorado por Lula e pela situação, e o uso do termo "povão" só fez reforçar sua imagem esnobe, "paulista" e antissocial. E mais estranho ainda é essa maneira como os grão-tucanos falam da situação da sociedade brasileira como observadores intelectuais, quase não participantes, tanto de seus avanços (Plano Real, privatização, algumas leis e civilidades) como de seus obstáculos (falta de prioridade a educação e tecnologia, incompetência na infraestrutura, corrupções e pacto com a oligarquia). Até nas campanhas presidenciais de Alckmin e Serra vimos essa postura...

Não espanta que o PSDB cada vez perca mais força, como agora se vê na debandada para o ridículo PSD de Kassab, correndo o risco até de perder o eleitorado que tem. E que Dilma Rousseff, do alto de tanta popularidade, sem oposição a não ser de seus próprios subordinados, siga governando sem reformar nada. Se alguém vai dar voz a essa classe média emergente, é bem pouco provável que seja o PSDB.

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