Aventuras inéditas chegam em livro

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2010 | 00h00

Pequeno Nicolau. Travessuras transcendem a memória e representam curiosa visão do mundo

 

 

 

As parcerias sempre inspiraram o cartunista francês René Goscinny (1926-1977): ao lado de Uderzo, criou um ícone da cultura pop, o gaulês Asterix; já com Jean Tabary, a parceria rendeu outro famoso personagem, Lucky Luke; mas foi ao lado de Jean-Jacques Sempé que Goscinny encontrou o perfeito equilíbrio entre a inocência infantil e a perspicácia adulta na figura de Nicolau, garotinho francês que, na década de 1950, frequenta uma escola apenas para meninos. Lá, suas travessuras transcendem a memória e representam uma curiosa visão do mundo.

Produzidas entre 1959 e 1965, as histórias escritas por Goscinny e desenhadas por Sempé eram publicadas semanalmente pelo periódico Sud-Ouest-Dimanche. Reunidas posteriormente em coletâneas, conquistaram o mundo em cinco volumes - no Brasil, a primeira edição, intitulada O Pequeno Nicolau, foi lançada em 1986 pela Martins Fontes, editora que ainda mantém as histórias no catálogo.

"Para escrever e desenhar as aventuras do pequeno Nicolau, os dois homens compartilhavam suas lembranças de infância", conta Anne, filha de Goscinny. Ela assina a introdução do livro A Volta às Aulas do Pequeno Nicolau, lançado agora pela Rocco e que traz histórias inéditas do personagem.

Trata-se de uma série de aventuras inéditas que a dupla havia produzido mas não publicado. Anne conta que o desejo de editar o material surgiu depois da morte do pai, em 1977.

Segundo ela, a família ainda mantinha um contato próximo com Sempé e Gilberte, sua mãe, acalentava o desejo de reencontrar Nicolau e sua turma, formada por Agnaldo, o queridinho da professora; Eudes, o valentão; Godofredo, o menino rico e mimado; e Alceu, o gordinho comilão. "Marquei um encontro com Sempé e lhe mostrei um primeiro projeto gráfico dos textos de meu pai ilustrados com seus desenhos", recorda-se. "Eu o observava examinando os próprios desenhos 40 anos mais tarde... e sorrindo (e que sorriso!). Foi com total entusiasmo que ele se juntou espontaneamente a mim nesse projeto."

Juntos, descobriram uma solução criativa para marcar o retorno de Nicolau: como qualquer menino de sua idade, ele volta à escola depois de um período de férias. Longas, por sinal.

A turma continua a mesma - Alceu, por exemplo, o gordo que não para de comer, continua como melhor amigo de Nicolau. Mas o novo volume reserva um papel mais destacado para Godofredo: pela primeira vez, Nicolau é convidado a conhecer sua casa. O deslumbramento com tanta riqueza é resumido em mais uma das pérolas de Nicolau: "Ele tem uma piscina em forma de feijão e uma sala de jantar do tamanho de um restaurante."

Nicolau não apresenta a visão agridoce do mundo de Mafalda, tampouco as confusões do pequeno filósofo Calvin - criado em uma época anterior, o personagem de Sempé e Goscinny, no entanto, resgata um tempo nostálgico, os anos 1960, que privilegiava as amizades.

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