Aventuras do corpo

Em Paris, mostra exibe expressões da dança nas artes

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h08

Quem poderia imaginar que a primeira exposição sobre história da dança realizada por um museu do porte do Centro Pompidou, em Paris, seria o sucesso que foi? Para dar uma medida, basta saber o que aconteceu com o seu catálogo: colocado à venda por 40 (cerca de US$ 53,40), esgotou-se um mês antes do encerramento da exposição, e hoje pode ser encontrado na Amazon, usado, em apenas duas ofertas: uma por US$ 200 (quase quatro vezes seu preço) e outra por US$ 388,50 (quase sete vezes).

O nome da mostra, Danser Sa Vie - Art et Danse de 1900 à Nos Jours (Dançar a Sua Vida - Arte e Dança de 1900 aos Nossos Dias), vem de Isadora Duncan, que escreveu, em 1928, no seu livro Minha Vida, que a sua arte "era um esforço de exprimir a verdade do seu ser". "Desde sempre não fiz outra coisa senão dançar a minha vida."

Em termos espaciais, a exposição se distribuiu em torno de três temas: danças de si ou a invenção de uma nova subjetividade (com 18 artistas), abstração dos corpos (com 34) e dança e performance (com 32). Mas foram sobretudo dois assuntos que concentraram quase tudo o que foi mostrado: a dança expressionista na Alemanha e a dança pós-moderna norte-americana. Não à toa, os próprios franceses se queixaram da pouca projeção que lhes foi conferida.

O crítico Laurent Goumarre protestou na revista Art Press 384, de dezembro, nomeando muitos artistas franceses que não encontrou na exposição e que trabalham no viés eleito pelas curadoras - o do encontro entre a dança e as outras artes. E terminou seu texto declarando que é impossível seguir a proposta de Isadora, pois a vida não pode ser dançada, somente relatada.

Nesse aspecto, as duas conservadoras do Museu de Arte Moderna que se tornaram as curadoras dessa exposição, Christine Macel e Emma Lavigne, não discordam, pois declararam, no próprio catálogo, não ser possível expor a dança, somente seus traços. Em entrevista na revista Danser n.º 314, de novembro, disseram que se tivessem tido 5 mil m² em vez dos 3 mil que receberam, teriam colocado mais dois temas: o impacto da dança popular na dança e na arte contemporâneas e a dança engajada e política. Um pingo da primeira se faz presente no gogo dancer que se apresentava uma vez por dia dentro da obra de Félix Gonzalez-Torres, e também com Josephine Baker, e a segunda, na seção dedicada à Dança no Terceiro Reich.

Do Brasil, apenas três parangolés de Hélio Oiticica, encostados em uma parede, irrompiam assim meio do nada, sem poder fazer sentido para quem não os conhecesse, desacompanhados de qualquer texto que os situasse. Do Japão, um Kazuo, mas não o Ohno e sim, o Shiraga.

O Centre Pompidou, que se caracteriza como um museu que programa exposições pluridisciplinares, jamais havia incluído a dança como tema em nenhuma delas. A proposta inicial das duas curadoras do Danser Sa Vie foi a de identificar se o atual interesse dos artistas contemporâneos pela dança já ocorria antes, se esse tipo de cruzamento faz parte da história. Definiram como período o que ocorreu do fim do século 19 até hoje e, nele, focaram somente a interação entre as mídias e não as formas de colaboração em cena.

Nele, garimparam algumas novidades importantes, como, por exemplo, a produção do casal Lavinia Schulz e Walter Holdt, que ainda não tinha saído da Alemanha, desenhos inéditos de Laban e desenhos jamais reproduzidos de Wigman.

Outros museus já realizaram mostras sobre dança, dentre as quais a Danses Tracés, produzida por Bernard Blistène em 1991, em Marselha; a do centenário dos Ballets Russes, em Mônaco e Londres (2009/2011); sobre Anna Halprin (2006) e sobre Trisha Brown (2010), ambas no Museu de Arte Contemporânea de Lyon. Mas Danser Sa Vie foi a primeira a fazer da história da dança o seu assunto.

Além da exposição, foram programados espetáculos de Steven Cohen, Meg Stuart, La Ribot, Steve Paxton, Olga de Soto, Myriam Gourfink, François Chaignaud e Cecilia Bengolea, Herman Diephuis e Anne Teresa de Keersmaeker. E também performances de Trisha Brown, Davide Balula, Alex Cecchetti e Richard Siegal. Foi lançado um livro, com o mesmo título da exposição, Danser Sa Vie - Écrits Sur la Danse, reunindo 23 textos de artistas e pensadores como Nijinsky, Laban, John Martin, Merce Cunningham, Yvonne Rainer, Laurence Louppe, Giorgio Agamben, Alain Badiou, Georges Didi-Huberman, Kandinsky, Mallarmé, Oskar Schlemmer e Marinetti. Neles, Hélio Oiticica também foi incluído.

O duro é perceber que para apresentar a dança como uma arte que deixa traços e não é efêmera, as curadoras fizeram a escolha mais óbvia e acabaram validando a dança através das outras artes. E o mais preocupante foi perceber que, apesar de toda a profusão bibliográfica sobre colonização que tem sido produzida nos anos recentes, uma exposição do porte e importância dessa continuou a manter o velho olhar eurocêntrico sobre o mundo.

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