Aventuras do caipira brasileiro

A peça Hoje Tem Mazzaropi recria situações do famoso comediante a partir de Philaderpho, um fictício primo distante

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

Tudo começou com uma encomenda - famoso pelas apresentações que faz em diversas cidades da região do Vale do Paraíba com o personagem Philaderpho (um primo fictício do famoso Mazzaropi), o ator Julio Lima decidiu unir as aventuras em um texto para ser encenado no teatro. Convidou, assim, o dramaturgo Mário Viana que, embora totalmente citadino, pesquisou a vida e a carreira do famoso comediante para escrever a comédia Hoje Tem Mazzaropi, que estreia no Teatro União Cultural.

"O pedido do Julio foi uma surpresa, pois minha pegada é urbana, não tem nada de rural, caipira", conta Viana. "Mas quando comecei a pesquisar sobre o Mazzaropi, fui descobrindo um personagem fascinante, maior que qualquer peça."

De fato, um dos maiores cômicos brasileiros, Amácio Mazzaropi (1912-1981) consagrou, em 32 filmes, a figura do homem desengonçado, com os dentes cariados, a camisa xadrez abotoada até o pescoço e um sotaque caipira fortíssimo. E, além de ator, desenvolveu uma sólida trajetória como produtor, cuidando diretamente da distribuição de seus longas que, nos anos 50 e 60, atraíam um público médio de 6 milhões de espectadores a cada nova estreia, número hoje difícil de se igualar.

Assim, Philaderpho traz idênticas características e ainda se inspira nas mesmas complicações sofridas pelo primo famoso. Na peça, por exemplo, ele mora na roça com a família (a mulher Zefa e as filhas Dolor e Maricota) até que a tranquilidade é abalada quando a mais velha, Dolor, resolve ser artista na cidade grande. Preocupada, a família sai em sua busca e, no caminho, Philaderpho é apontado como a nova grande promessa de sucesso, após a morte do primo Mazzaropi.

Viana conta que buscou inspiração nos filmes do caipira. "Foi ali que entendi o humor do Mazzaropi, um personagem falsamente ingênuo. Há cenas que fazem referência direta aos longas. No final, acreditei ter escrito um roteiro, pois, depois de reler a peça, pensei: o Mazza faria esse filme."

Caminhão. A longevidade do personagem, aliás, é constatada nas apresentações que Julio Lima faz nas cidades do interior. Intérprete de Philaderpho há dez anos, ele participa de convenções, feiras e até dá palestras em faculdades. A aproximação com Mazzaropi é tamanha que Lima comprou e restaurou Anastácio, caminhão Chevrolet 1930, que o ator utilizou em todos os seus filmes.

Não satisfeito, ele conseguiu os direitos do roteiro do Maria Tomba Homem, que Mazzaropi produzia quando morreu. Lima agora está em busca de patrocínio.

O fascínio do ator contagiou o dramaturgo pois, na peça, Viana optou por usar as músicas que o próprio Mazzaropi cantava em seus filmes. "O empresário Amácio Mazzaropi era um titã, um produtor que levava muito a sério o seu trabalho. Isso me deixou impressionado", conta. "Para fazer filmes que a intelectualidade via com nariz torcido, ele comprava equipamentos de primeira qualidade e investia no que hoje chamamos nova geração de lentes e maquinário." Com direção de Hugo Coelho, a peça traz ainda os atores Iara Jamra, Silvia Poggetti, Beto Galdino, Dani Mustafci e Maria Carolina Dressler.

HOJE TEM MAZZAROPI

Teatro União Cultural (285 lugares). Rua Mario Amaral, 209, 2184-2900, metrô Brigadeiro. 6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 20/R$ 40. Até 27/6

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.