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Vanessa Barbara
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Aventuras com o coletor

Aviso ao leitor: este texto contém as palavras-chave “menstruação”, “vagina”, “cérvix” e “muco uterino” (ou necrose do tecido endometrial, que é bem mais dramático). Se o leitor tiver nojinho desses vocábulos ou sentir-se pessoalmente ultrajado pelo sistema reprodutor feminino, poupe-se desta crônica e vá direto para a tirinha do Calvin. O tema da próxima será: pingue-pongue. Ou asteriscos. Ainda não decidi. 

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

13 de junho de 2016 | 02h00

No mês passado, resolvi parar de usar absorventes e adotar um coletor menstrual. Para quem não conhece, é um copo de silicone hipoalergênico que você introduz na vagina e lá ele pode permanecer por até doze horas, coletando o sangue com seriedade e determinação, sem incômodo ou a proverbial sensação de ter um tijolo de algodão entre as pernas. O mesmo coletor pode ser usado por anos, é só fervê-lo a cada período. Ao longo da vida, são utilizados 10 mil absorventes, que demoram um século para se decompor.

Tomada a decisão, só faltava aprender a usá-lo. Então, na época propícia, me tranquei no banheiro com as instruções e a confiança de quem já nadou com tubarões e fui em frente. (Ou melhor, fui atrás – um dos segredos é mirar o objeto em direção às costas, e não para cima.) O material é maleável e existem várias opções de dobra para a inserção. 

Quinze minutos depois, e nada. Ficar nervosa é o pior que se pode fazer nessas situações; por isso botei uma música animada e tentei pensar em coisas divertidas, como aquele episódio do Pica-Pau em que ele bota fogo no piano. Em poucos segundos, deu certo: o copo se abriu num “plop” e aderiu à parede vaginal.

Nas sete horas seguintes, nem um pingo de sangue vazou na calcinha. 

Aos homens desinformados que conseguiram chegar até aqui, explico que menstruar não é tão simples quanto os anúncios de TV fazem acreditar. (O sangue, por exemplo, não é azul.) Além das calcinhas arruinadas, temos de lidar com um cheiro de putrefação e a sensação de vazar pelo canto das pernas; você realmente sente quando um coágulo está descendo em toda a sua glória durante uma entrevista de emprego. 

Mais tarde, houve certo nervosismo na hora de retirar, pois não conseguia encontrar a ponta. Já comecei a fantasiar meu discurso no pronto-socorro: “Pessoal, tem um coletor menstrual perdido no meu baço”. No momento, o celular tocava a Grande Valsa Brilhante, de Chopin, o que acrescentou uma inesperada carga cômica à situação. 

Ao alcançar a ponta, não adianta tentar puxá-la, já que o vácuo mantém o copo firme no lugar. É preciso apertar a base a fim de remover o ar, e para tanto é necessário “parir” o material.

Num ímpeto final, puxei com muita força e o copinho voou, salpicando as paredes de sangue como em uma cena de Dexter. (Ao menos não há odor; o sangue não fica com cheiro ruim pois não teve contato com o ar.) Ou seja: ecológico, higiênico e artístico. Não vejo a hora de praticar de novo. 

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