Avenida Estados Unidos

Eu aaaamo vocês, mulheres!

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2012 | 03h06

Não, a possível próxima primeira-dama americana não estava saindo do armário e declarando seu lesbianismo. Ann Romney estava lendo o teleprompter e incorporou uma Neide Aparecida do tempo dos espetáculos Tonelux (leitores jovens, por favor, dirijam-se ao YouTube). O discurso de quarta-feira na convenção republicana poderia ter sido escrito no Vale do Silício - se alguém já inventou o algoritmo que calcula as palavras certas para chamar atenção de segmentos demográficos pouco enamorados do candidato mórmon republicano. Suspeito que Ann Romney teria sido reprovada no curso de teatro do Tablado, com suas frases terminando em tons agudos, sem pontuação, comuns às conversas de adolescentes.

Ela é mãe dedicada, segundo seu marido e os cinco filhos homens. Diz que escolheu a carreira de mãe para ficar em casa, como se a escolha estivesse disponível para a esmagadora maioria das mulheres. Anunciou que não estava lá para falar de política e sim de amor, sem alertar que os diabéticos deveriam sair da sala, diante da enxurrada de declarações açucaradas que estava por vir.

"Eu li em algum lugar que Mitt e eu temos um casamento de conto de fadas", disse, armando mais uma cilada sedutora. "Bem, nas histórias de fadas que eu li, nunca houve longas tarde de inverno com cinco garotos gritando ao mesmo tempo." Estamos falando de uma milionária que teve quantos filhos quis. Pausa para o público rir, solidário. "E os livros nunca tinham capítulos chamados esclerose múltipla ou câncer de mama." A mulher do candidato que promete desmantelar o plano de seguro saúde de Obama no primeiro dia de seu mandato não pensa duas vezes em transformar suas doenças em linhas de aplauso.

Um comentarista negro na folha de pagamento da Fox News teve a audácia de discordar, ao vivo, de seus obsequiosos colegas e foi contra o baba-ovo geral dirigido a Ann Romney. "Ela soa como uma esposa corporativa", disse Juan Williams, enquanto sobrancelhas se erguiam na bancada de direitistas de carteirinha. "O que é isso, esposa corporativa?", perguntou a âncora-boneca Barbie. "Uma mulher de quem o marido toma conta, uma mulher muito afluente, querendo convencer de que compartilha das lutas das mulheres no país." Williams foi castigado pelos colegas e pela campanha Romney.

Sim, as convenções políticas são como infomercials, um púlpito para pregar para convertidos. A convenção democrata que começa hoje à noite em Charlotte, na Carolina do Norte, será especialmente melancólica. Hilary escafedeu-se para a Ásia e vai perder a primeira convenção de sua vida adulta. Seu marido ainda muito popular é a grande esperança para convencer os indecisos brancos de que seu alter ego centrista se chama Barack, não Mitt.

Os americanos continuam preferindo tomar cerveja com Barack. Mas a fadiga da crise econômica é evidente e Obama, a exemplo de um querido líder brasileiro, num passado não distante, desperdiçou boa parte de seu governo sem comunicar ao público suas prioridades, a seriedade da conjuntura internacional e também os seus sucessos.

O presidente Obama, que admitiu tomar uma surra eleitoral quando o Tea Party liderou a retomada da maioria na Câmara dos Democratas em 2010, demorou a acordar. Naquele ano, o líder republicano no Senado anunciou aos quatro ventos: "O nosso principal objetivo é tornar Barack Obama o presidente de um só mandato." Dane-se o déficit, o seguro saúde, a educação, a catástrofe da seca provocada por mudanças climáticas.

No fim da semana passada, estava postada numa esquina de Manhattan, gravando a abertura de um vídeo para o Saia Justa. Meu querido cinegrafista, aquele que votou em Bush duas vezes e depois em John McCain e concorda em discordar de mim, notou o ruído de um caminhão dos Correios que estacionava para recolher a correspondência da caixa postal na rua. "Espero que ele desligue logo o motor", eu disse, porque o som vazava no meu microfone. "É funcionário do governo, vai remanchar quanto puder", disse meu colega, que usa seu zelo antigoverno como um filtro para qualquer situação. O carteiro desligou o motor. Em seguida, o caminhão de uma firma independente de entregas parou logo na frente em fila dupla. Três homens saltaram para comprar um lanche. Protegidos pela placa comercial, decidiram almoçar com o barulhento motor ligado, no meio da Broadway. "Acho que a iniciativa privada vai estragar nossa gravação", comentei com o meu colega exasperado. O caminhão havia bloqueado um BMW reluzente. Fui até o caminhão, encostei com um ar meio proprietário no BMW e perguntei, "Vocês vão demorar?" O motorista deu a partida. Para o quarteirão seguinte, onde foi azucrinar outros pedestres. Uma ilustração da mudança, aquela do pôster, que não aconteceu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.