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Avanço e recuo

Uma avaliação da televisão brasileira na primeira década do século 21, pelo ângulo da tecnologia, traz resultados contrastantes e oferece um interessante balanço de perdas e ganhos. Nunca houve tantas e tão rápidas mudanças tecnológicas nesse mercado, que completou em 2010 os seus 60 anos de existência no País. Nunca esteve também tão ameaçada a sua hegemonia, no conjunto das mídias oferecidas aos brasileiros. É possível dizer que, nesta década, paradoxalmente, a TV avança e recua ao mesmo tempo, pressionada por diferentes vetores do desenvolvimento tecnológico.

Gabriel Priolli, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Os anos 2000 começaram com as emissoras brasileiras transmitindo imagens em sistema analógico, para televisores de tubo (tecnologia CRT, Cathode Ray Tube). Encerram-se com transmissões simultâneas em sistema analógico e digital, e com os televisores de tubo perdendo espaço rapidamente para os aparelhos de plasma, LCD e LED, enquanto o 3D esquenta os transistores. As imagens são captadas tanto em telas gigantescas, que já atingem 100 polegadas, como nos displays minúsculos dos telefones celulares, dos GPs ou dos televisores móveis. O sinal de TV é onipresente no espaço privado ou público, tal a quantidade de tecnologias que podem oferecê-lo.

No entanto, a despeito dessa oferta abundante, os índices de audiência são declinantes no Brasil - como, de resto, no mundo todo. Na Grande São Paulo, em 2005, os televisores ligados durante o horário nobre atingiam 63% do total de aparelhos instalados. Hoje, flutuam em torno de 55% e os números seguem caindo. Aproxima-se o momento em que teremos mais televisores apagados do que acesos, a qualquer hora do dia.

A principal responsável por isso é outra tecnologia, mais completa e avançada do que a TV conseguiu lograr até agora: a internet em banda larga. Ela cresce nestes anos 2000 com a velocidade da luz e já oferece conexões domésticas ultrarrápidas, permitindo ao usuário a assistir vídeos ou programas de TV via computador com qualidade quase equivalente à encontrável nos televisores. Com uma vantagem adicional - a plena interatividade -, que viabiliza até mesmo o tráfego de conteúdos gerados pelo próprio usuário, em suas câmeras de vídeo ou celulares. E que faz dela um meio de comunicação muito mais interessante do que qualquer outro.

Um emblema da situação paradoxal da televisão são os reality-shows, surgidos por aqui em julho de 2000, com a estreia de No Limite na TV Globo, e consagrados com Casa dos Artistas (SBT, 2001) e Big Brother Brasil (Globo, 2002). Eles se baseiam na participação ativa do público, seja como protagonista dos programas, seja como votante na eliminação de participantes. Mas, embora a TV digital esteja em operação no País desde dezembro de 2007 e a tecnologia permita a interatividade do usuário, nenhum telespectador pode fazer uso dessa funcionalidade, pelo simples fato de que as emissoras ainda não se interessaram em implementá-la. Assim, quem vota nos reality-shows tem de fazê-lo pela internet ou pelo telefone, em vez de simplesmente usar o controle remoto do televisor. É TV interativa com a mídia dos outros, sem refresco para ninguém.

Outra funcionalidade da TV digital que afetaria o mercado, pela multiplicação do número de canais disponíveis, seria a multiprogramação. Mas, novamente, o telespectador não se beneficia. A multiprogramação só está autorizada pelo Ministério das Comunicações para emissoras educativas e apenas a TV Cultura de São Paulo faz uso dela, veiculando os canais TV Univesp e Multicultura, além do seu próprio sinal. O argumento para vetar-se o uso da funcionalidade à TV comercial é de que não há mercado publicitário capaz de financiar os novos canais, que surgiriam do desdobramento dos canais existentes.

Ainda assim, o advento da TV digital é a notícia mais importante da televisão nos anos 2000. A nova tecnologia produzirá mais efeitos sobre o mercado nas décadas vindouras, mas já permite à televisão encarar com algum otimismo a concorrência seriíssima da internet. Se ainda não é interativa e multicanal, já transmite em alta definição de som e imagem, e é perfeitamente sintonizada em dispositivos móveis. Está em plena disputa pela atenção do consumidor, sobretudo o jovem, o telespectador mais infiel nos tempos que correm.

Nos anos 2000, o surgimento de uma nova linha de humor, com produtos como Pânico (RedeTV!, setembro de 2003) e CQC (Band, março de 2008) levou à obsolescência de um programa tradicional como Casseta & Planeta (Globo), que sairá do ar este mês, depois de 19 anos de sucesso. Da mesma forma, o esgotamento temático e formal das telenovelas determinou a perda progressiva de audiência do gênero, a despeito de êxitos como O Clone (Globo, 2002) e Senhora do Destino (Globo, 2004-2005), e de experiências exóticas como Metamorphoses (Record, 2004) ou Os Mutantes - Caminhos do Coração (Record, 2008).

A internet, portanto, é ameaçadora. Mas não é apenas ela que explica a trajetória da TV nesta década, que se vai sem nada de extraordinário a celebrar.

GABRIEL PRIOLLI É JORNALISTA E PRODUTOR

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