Auxílios luxuosos renovam o verde

Novas obras convivem com o já tradicional Jardim das Esculturas

Marina Vaz, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2010 | 00h00

Um dos precursores do grafite no Brasil, Alex Vallauri (1949- 1987), pintou, em abril de 1982, aquele que foi considerado o primeiro mural feito com a técnica para um museu brasileiro. A obra, neste caso, ocupava a fachada do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP), no Parque do Ibirapuera. Quase 30 anos depois, a parede externa da instituição está novamente tomada, mas, desta vez, pelo trabalho da dupla Osgemeos, igualmente reconhecida nacional e internacionalmente.

O mural criado pelos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, de 36 anos, foi feito em março deste ano e mede 14 m X 4 m. A obra, além de preencher o vazio da única parede da fachada do museu, que é toda envidraçada, serviu também para reforçar a presença do MAM no parque. "Do ponto de vista arquitetônico, o museu é muito discreto", avalia Felipe Chaimovich, curador do MAM-SP. "Ele é uma vidraça quase sempre adesivada, para preservar as condições de luminosidade das obras; então, as pessoas muitas vezes nem veem que tem um museu ali."

Hoje é difícil não perceber a pintura feita pela dupla, que começou sua carreira grafitando as ruas de São Paulo em 1987 e, desde então, já levou seus trabalhos a importantes centros mundiais, como a Tate Modern, em Londres. No universo onírico retratado no mural, seus famosos personagens de pele amarela e olhos pequenos coexistem com sapos e água-vivas, enquanto rostos gigantes emergem de uma cachoeira, por onde passam trilhos de trem. "O mural é uma forma de criar uma interface com o público que passa pelo Parque do Ibirapuera e, em geral, tem resistência a entrar no museu por achar que é uma instituição socialmente excludente", avalia o curador.

Uma das iniciativas mais bem-sucedidas de arte pública no Ibirapuera, também ligada ao MAM, é o Jardim de Esculturas. Inaugurado em 1993, o espaço tem projeto paisagístico de Roberto Burle Marx (1909-1994) e reúne 30 esculturas pertencentes ao acervo do museu, com exceção de A Caçadora (1944), de Lélio Coluccini, que é de propriedade da Prefeitura. "O Jardim é um espaço privilegiado; a implantação dele em si já é uma obra de arte", diz Chaimovich. "E, dentro do contexto do parque, ele se torna um microcosmos dessa grande obra de arte que é o Ibirapuera." Entre as esculturas estão peças de artistas como Amilcar de Castro, Iole de Freitas, Nuno Ramos, Amélia Toledo e Franz Weissmann.

Temporário. Outro espaço do parque que recebeu investimento em arte pública, antes mesmo de ser inaugurado oficialmente, foi o Pavilhão das Culturas Brasileiras. O edifício abrigou, do início dos anos 1970 até 2006, a sede da Prodam (Companhia de Processamento de Dados da Prefeitura de São Paulo). Desde abril, com o anúncio oficial do futuro museu voltado às culturas populares e indígenas, que tem inauguração prevista para 2012, o prédio passou a abrigar exposições temporárias. Enquanto a restauração e reforma do espaço, comandada pelo arquiteto Pedro Mendes da Rocha, não começa, parte da fachada posterior do museu foi colorida por quatro artistas representados pela galeria de arte urbana contemporânea Choque Cultural. Em uma área total de 160 m², Carla Barth, Minhau, Chivitz e MZK pintaram murais que dialogam com a temática do futuro Pavilhão ou com o cotidiano do próprio parque. "A obra pública tem de se conservar leve, tem de ter a capacidade de conversar com diferentes públicos, desde o mais simples até o mais culto, e causar interesse", defende Baixo Ribeiro, curador e sócio da Choque Cultural. Em comum, os quatro artistas têm a ligação com a arte feita nas ruas. O estilo naïf, que aparece com frequência nas obras expostas no Pavilhão, surge também no mural de Carla, permeado por cenas surreais e com uma roupagem pop. A influência afro na cultura brasileira está representada nas máscaras e nos tambores pintados por MZK. Minhau, que espalha figuras de gatos com estampas e cores variadas pela cidade, levou o desenho dos animais também para seu trabalho no parque. E Chivitz, que, quando garoto, costumava andar de skate no Ibirapuera, aproveitou o espaço para pintar um skatista.

Até mesmo fora do parque, há novas obras públicas surgindo. Na entrada do portão 3, que dá acesso ao estacionamento, pode-se ver, à esquerda, dutos de ventilação do Túnel Ayrton Senna que foram pintados pelo brasileiro Tony de Marco (também conhecido como Pixotosco) e pelo alemão Manuel Osterholt (ou Superblast). Na intervenção, predominam formas abstratas e coloridas que não cobrem totalmente os dutos para que eles apareçam como "suporte artístico", como explica David Quiles, fundador da Rojo. A organização cultural, fundada há nove anos em Barcelona (Espanha), foi que liderou a ação. Nela, sete artistas internacionais pintaram diversos dutos de ventilação da cidade, em setembro de 2009. "Não há uma identificação com elementos ou personagens, a ideia é trazer cor para a cidade; é um trabalho artístico mas também arquitetônico", observa Quiles.

Outro jardim. Quem andar pelas proximidades do MAM de 22 de setembro a 31 de dezembro poderá ver novas obras feitas por artistas brasileiros, como Beatriz Milhazes, Ernesto Neto e Pazé. Neste caso, a proximidade com o verde será ainda maior. É que os trabalhos, que unem paisagismo e artes plásticas, fazem parte do Festival Internacional de Jardins de Chaumont-sur-Loire, primeira versão do evento realizada fora da França e viabilizada em parceria com o MAM. Com curadoria de Felipe Chaimovich, a ação contará com paisagistas franceses, como Louis Benech, Florence Mercier, Michel Racine e Béatrice Saurel.

"O fato de um museu levar a arte para o parque oferece a possibilidade de as pessoas terem contato com uma arte nascendo, com o artista produzindo, e isso pode revelar outros olhares, outras possibilidades", observa Heraldo Guiaro, diretor do Parque do Ibirapuera.

O QUE OS CURADORES PENSAM

AGNALDO FARIAS

CURADOR DA 29ª BIENAL INTERNACIONAL DE SÃO PAULO

"É muito interessante colocar a arte em contato com as pessoas sem que elas já estejam precavidas em relação ao que vão encontrar. No Parque, esse tipo de inesperado abre uma brecha para a fantasia no cotidiano das pessoas"

BAIXO RIBEIRO

CURADOR E SÓCIO DA GALERIA CHOQUE CULTURAL

"Colocar obras fora dos museus é estimular o gosto das pessoas pela arte, é atrair mais público não para dentro dos museus, mas para dentro da própria arte. E ela precisa causar interesse, surpresa, fascínio, dialogar com as pessoas."

FELIPE CHAIMOVICH

CURADOR DO MAM-SP

"Em uma situação de arte a céu aberto não há nenhuma barreira social na identificação do espaço da arte com o espaço público. Isso ajuda a desmistificar o museu. E, mundialmente, o trabalho dessas instituições tem sido de romper as barreiras sociais que existem por uma natureza histórica."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.