Autoridades acompanham velório de Niemeyer no Palácio do Planalto

Visitação de populares será permitida das 16h às 20h, no Palácio do Planalto; arquiteto morreu na noite de quarta-feira, aos 104 anos

Antonio Pita, Felipe Tau e Rafael Moraes Moura, O Estado de S. Paulo

06 de dezembro de 2012 | 09h53

Atualizada às 16h16

Brasília - O corpo do arquiteto Oscar Niemeyer, morto na quarta-feira, 05, aos 104 anos no Rio de Janeiro, chegou por volta das 15h50 ao Palácio do Planalto, onde está sendo velado. O Palácio do Planalto é um projeto de autoria do próprio Niemeyer. Oito cadetes da Polícia Militar do Distrito Federal subiram a rampa carregando o corpo do arquiteto. A bandeira do Brasil foi colocada sobre o caixão e retirada logo depois.

Ao telefonar para a família de Niemeyer para prestar condolências, ainda na noite de ontem, a presidente Dilma Rousseff colocou o Planalto à disposição para o velório. Um avião cedido pela própria Presidência da República transportou o corpo do Rio de Janeiro para Brasília. Além de Dilma e da viúva de Niemeyer, Dona Vera; os presidentes do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e da Câmara, Marco Maia (PT-RS), acompanham o velório.

Também estão presentes os ministros do Planejamento, Miriam Belchior; das Relações Exteriores, Antonio Patriota; da Defesa,  Celso Amorim; da Secretaria de Comunicação Social, Helena Chagas; da Educação, Aloizio Mercadante; da Casa Civil, Gleisi Hoffmann; da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho; da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti; da Saúde; Alexandre Padilha; do Gabinete de Segurança Institucional, general José Elito, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Em homenagem a Niemeyer, foi feito um minuto de silêncio quando o corpo chegou ao Planalto, agora à tarde; e antes da solenidade de anúncio de investimentos para portos, pela manhã. O velório deverá ser aberto ao público a partir das 16 horas, sendo encerrado às 20 horas.

Em nota de pesar divulgada ontem, Dilma diz que a história de Niemeyer não "cabe nas pranchetas". "Niemeyer foi um revolucionário, o mentor de uma nova arquitetura, bonita, lógica e, como ele mesmo definia, inventiva. (...) É dia de chorar sua morte. É dia de saudar sua vida", afirma a presidente no texto. Segundo informações do site da Presidência da República, Niemeyer definiu as colunas do Palácio do Planalto da seguinte forma: "Leves como penas pousando no chão".

O corpo do arquiteto chegou às 14h20 na Base Aérea de Brasília, dentro do horário previsto. No Rio, dez batedores da Guarda Municipal acompanharam o trajeto do caixão entre o Hospital Samaritano, onde Niemeyer esteve internado nos últimos 33 dias, e o aeroporto. A missa realizada na capela do hospital e presidida pelo padre Jorjão, da Paróquia Nossa Senhora da Luz, terminou por volta das 11h. Emocionada, a viúva do arquiteto falou com a imprensa. "Perdi a pessoa que mais gostava no mundo, que mais amei. Vai ser difícil, mas o tempo passa. Estou muito fragilizada", disse Vera.

Ela contou que, anteontem, Niemeyer disse que queria comer um pastel e tomar café. "Não saí de perto dele em nenhum momento, nem nos melhores, nem nos piores. Acompanhei tudo". Há alguns dias, Niemeyer havia dito à mulher que precisava deixar o hospital para continuar trabalhando. "Ele disse: 'tenho que ir embora. Meus trabalhos estão atrasados'. E falava para o enfermeiro: 'temos que fazer o nosso samba'."

De acordo com Vera, ele estava reagindo bem ao tratamento, "mas de repente foi ficando quietinho, quietinho". Ela disse também que vai atender ao desejo do marido de editar um livro que haviam idealizado juntos, além da revista da Fundação Oscar Niemeyer. "Foi a única coisa que eu prometi a ele. Ele queria ser lembrado como uma pessoa digna, honesta e amiga, como sempre foi."

Ao retornar ao Rio, o corpo do arquiteto deve ser levado para o Palácio da Cidade, para uma cerimônia fechada. O velório aberto ao público ocorreria na manhã desta sexta-feira feira,7, e o enterro, à tarde, no Cemitério São João Batista. O governador Sérgio Cabral decretou luto de três dias no Estado.

Niemeyer estava internado no Hospital Samaritano, em Botafogo, desde 2 de novembro. Inicialmente vítima de desidratação, ele também teve problemas nos rins e era submetido a hemodiálise, além de fisioterapia respiratória. Pela manhã de ontem, o arquiteto sofreu uma parada cardíaca e sua respiração passou a ser mantida por aparelhos. O arquiteto completaria 105 anos no próximo dia 15.

O velório no Palácio do Planalto, sede do governo federal e obra do próprio Niemeyer, foi proposto pela presidente Dilma Rousseff, que ligou para a família do arquiteto assim que soube de sua morte. Em nota oficial, a presidente lamentou a morte do "grande brasileiro".

Oscar Niemeyer se formou em arquitetura e engenharia em 1934, pela Escola Nacional de Belas Artes, e seu primeiro projeto individual foi o edifício Obra do Berço, no Rio, em 1937, no qual já mostrou características que marcariam seus trabalhos ao longo dos anos, como plantas e fachadas livres, influências da arquitetura moderna e do francês Le Corbusier. Em 1939, projetou o Pavilhão Brasileiro na Feira Mundial de Nova York, ao lado de Lúcio Costa. Em 1946, foi um dos convidados a construir a sede da Organização das Nações Unidas (ONU) na cidade norte-americana de Nova York.

Sua obra-prima foi o plano piloto da capital federal, Brasília, inaugurada em 1960 pelo então presidente Juscelino Kubitschek. Trabalhando com Lúcio Costa à convite do presidente, projetou os edifícios do Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, Congresso Nacional, Catedral e Esplanada dos Ministérios, que deram fama internacional a Brasília, construída sob uma estética modernista que explora ângulos curvos no lugar de linhas retas, o uso de concreto armado, o célebre formato da cidade, inspirado em um avião, avenidas largas, blocos de edifícios afastados e amplos espaços vazios, rampas e vastas áreas verdes.

Conhecido pela defesa da causa comunista, foi perseguido durante a ditadura militar e decidiu se exilar em Paris. Ele visitou a antiga União Soviética e foi amigo pessoal de Luís Carlos Prestes e do líder cubano Fidel Castro. Na capital francesa, abriu um escritório e fez projetos no país, na Argélia e em Portugal. De volta ao Brasil, nos anos 1980, projetou no Rio o sambódromo e participou de projetos educacionais e culturais de Darcy Ribeiro. Em 1996, inaugurou o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, e, em 2002, o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, conhecido como o Museu do Olho, com prédios que lembram naves espaciais. Em São Paulo, suas obras mais famosas são o Parque do Ibirapuera e o complexo de pavilhões do local, o Edifício Copan e o Memorial da América Latina.

Ao longo de sua vida, assinou cerca de 500 obras nas principais cidades brasileiras e em países como Líbano, Alemanha, Inglaterra, Espanha, Israel e Itália. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Prêmio Pritzker de Arquitetura, Prêmio Unesco, na categoria Cultura, Royal Gold Medal do Royal Institute of British Architects, Prêmio Leão de Ouro da Bienal de Veneza e Medalha de Ouro da Academia de Arquitetura de Paris.

Ele tinha medo de avião e, sempre que possível, evitava voar. Dentro do País, preferia viajar de carro e, nas viagens intercontinentais, gostava de ir de navio. Embora a maioria de suas obras tenham sido grandiosas e de alto custo financeiro, muitos projetos foram doados pelo arquiteto por questões éticas e de amizade.

Carioca, filho de Oscar de Niemeyer Soares e Delfina Ribeiro de Almeida, Oscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares Filho nasceu no dia 15 de dezembro de 1907, no bairro das Laranjeiras. Casou-se com Annita Baldo quando tinha 21 anos e ficou viúvo em 2004. Dois anos mais tarde, casou com sua secretária, Vera Lúcia Cabreira. Com a primeira mulher, teve uma filha, Anna Maria Niemeyer. Deixou netos, bisnetos, trinetos e muitos amigos.

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