Autores fizeram história em Cannes

Sempre houve cinema na Romênia, mas durante a era de Nicolae Ceausescu (foto) havia um rígido controle sobre a produção - como sobre a informação em geral. Nessa época surgiu o enfant terrible contra o regime - Lucian Pintilie. Com seus filmes e peças, ele afrontou tanto a ditadura que foi forçado a abandonar o país. Em O Carvalho, que fez na França, ele mostrou os últimos momentos da ditadura. Em Trop Tard, Tarde Demais sugeriu que o êxodo era a única atitude decente de quem não queria transigir com o abominável Ceausescu. O incrível é que, quando o regime caiu, não houve resistência alguma dos próprios partidários do ditador. Com toda a máquina repressiva que havia montado, o regime caiu não com estrondo, mas com um suspiro.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

É o que mostra 12:08 A Leste de Bucareste. O longa de Corneliu Porumboiu ganhou a Caméra d"Or, a Palma de Ouro para filmes de estreantes, em Cannes, 2006. O filme mostra os bastidores de uma emissão de TV comemorativa do fim da era Ceausescu. O apresentador e seus convidados não conseguem chegar a um consenso - houve uma revolução popular, ou não? O povo reunido havia expulsado do ditador ou quando os populares chegaram à praça principal de Bucareste, Ceausescu e seus asseclas já tinham fugido?

A boa fase do novo cinema romeno começou em Cannes, em 2005, quando Cristi Puiu ganhou o prêmio da crítica com A Morte do Senhor Lazarescu (e o filme também recebeu o prêmio da seção Un Certain Regard). O filme é sobre o falido sistema de saúde do país, mostrando como um cidadão comum, o senhor Lazarescu, vive verdadeira via-crúcis na tentativa de conseguir atendimento médico e hospitalar. Com dores no estômago, ele é enviado de hospital a hospital, sem que ninguém se interesse pelo seu caso, exceto o condutor da ambulância. A humanidade desse último, sua compaixão pelo sofrimento do Sr. Lazarescu ilumina o filme que alterna momentos engraçados com outros tristes, exatamente como na vida.

Mas a cereja do bolo da consagração do novo cinema romeno atingiu seu ápice quando Christian Mungiu, o mentor de Contos da Era Dourada, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, 2007, por 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. Um pouco à maneira de Cristi Puiu em Senhor Lazarescu, mas com outro tratamento, o filme acompanha essa garota que tenta interromper sua gravidez. Sempre com uma amiga, ela termina por recorrer a um aborteiro, mas antes disso sua trajetória já pôs a nu a precariedade da vida na Romênia. Enterrar a herança de Ceausescu é muito mais complicado do que simplesmente acabar com sua ditadura.

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