Marcos Mesquita/Divulgação
Marcos Mesquita/Divulgação

Autores estabeleceram gramática dos musicais

Para Rodgers e Hammerstein, canções mudam a peça

Claudio Botelho ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2010 | 00h00

Se fosse preciso escolher um único nome que, em cem anos de teatro musical na Broadway, representasse o que de mais importante aconteceu e se tornou mito por ali, este nome quase que certamente seria Oscar Hammerstein II. É o pai do teatro musical americano, junto de seu parceiro mais emblemático, Richard Rodgers.

Rodgers & Hammerstein se consagraram como a marca mais popular e de maior prestígio dentro da Broadway, e seus espetáculos posteriores foram enormes sucessos em sua quase totalidade. Entre eles, O Rei e Eu, Carousel, South Pacific, e o último que fizeram juntos, A Noviça Rebelde, um dos mais populares filmes musicais de todos os tempos, cujas canções ganharam o mundo após a versão cinematográfica e permanecem como standards da música americana.

Hammerstein não chegou a assistir à estreia de seu último musical. Morreu de câncer durante os ensaios ainda, e algumas letras tiveram de ser escritas de última hora por Richard Rodgers. Mas o espetáculo, sob a aparente ingenuidade do enredo e uma visão edulcorada da história real de uma família que fugiu da Áustria para escapar da dominação nazista em 1939, é na verdade quase que uma cartilha dos preceitos de Hammerstein sobre a dramaturgia que ele inventara para o teatro musical. Está tudo ali.

O musical começa com a noviça Maria entoando a canção título, The Sound of Music, aparentemente apenas uma ode romântica às montanhas austríacas, mas que no fundo já define para o espectador quem é aquele personagem, seu amor pela música e pela natureza, antes mesmo que uma única fala seja dita na peça. Já no número seguinte, How Do You Solve a Problem Like Maria?, um coro de freiras desfila comicamente uma série de características não convencionais da personagem principal. Ou seja, no final deste número, Maria já está definida para a plateia sob o seu próprio ponto de vista e sob o ponto de vista de suas colegas de convento. Com duas canções e em menos de 15 minutos de show, todo o DNA emocional da personagem já foi desnudado, já sabemos quem é Maria, o que ela faz, onde ela se esconde quando está triste. Esta é a gramática de Hammerstein - a canção muda a peça.

Uma cena que se tornou parte do imaginário coletivo nos últimos 45 anos certamente é a de Maria ensinando os filhos do Capitão Von Trapp a cantar. Quem não conhece a canção Do-Re-Mi? Quantos não acham inclusive que aquilo é um exercício de canto tradicional, e não algo escrito e pensado para o teatro? O fato é que ali há mais do que uma lição de música, há certamente uma aula de como transformar uma cena que poderia ser tediosa e didática numa pérola dramatúrgica.

Antes da canção, vemos crianças indóceis, quase mal-educadas, que já fizeram um inferno da vida de diversas governantas, receberem com muito mau humor a nova preceptora contratada pelo pai. Durante a canção, sem que seja preciso usar diálogos, vemos Maria usando a música para amolecer as crianças, vemos cada uma delas aderindo aos novos ensinamentos, percebemos a personalidade de cada filho pelo modo como entram no jogo. E quando o número acaba, a peça já avançou, a história mudou, páginas e páginas de diálogos foram trocadas por 5 minutos de música. Parece banal para os conceitos do musical de hoje em dia, mas para a época era revolucionário.

O mesmo acontece com praticamente todos os números musicais da obra. Nada está ali por acaso, nenhuma canção aparece apenas para florear os acontecimentos. Até mesmo o hino Edelweiss, que muita gente acha que é uma canção folclórica e não algo escrito especificamente para este musical, é usado como um golpe dramático que simplesmente traz fortes momentos de tensão ao enredo e conduz a peça ao seu final.

O filme A Noviça Rebelde é uma das transposições mais fiéis da obra de Rodgers & Hammerstein para o cinema. O diretor Robert Wise no entanto não é nada teatral em sua adaptação, e usa e abusa de efeitos da tela grande com maestria. O número inicial filmado de um helicóptero, com a câmera percorrendo e dançando sobre montanhas da Áustria até encontrar Julie Andrews rodando sobre o verde, é antológico.

CLAUDIO BOTELHO PRODUZIU, COM CHARLES MOELLER, UMA VERSÃO NACIONAL DE A NOVIÇA REBELDE

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