Autores, em grande medida, excêntricos e inclassificáveis

Perfil de Prófugo (título de um dos romances de Horacio Castellanos Moya) definiria com acerto os traços característicos tanto do seu autor como de Mario Levrero, ambos selecionados pela Editora Rocco para iniciar a coleção Otra Língua. E de fato, os dois escritores, desconhecidos até agora no Brasil, são em grande medida excêntricos e inclassificáveis; carecem de um centro institucional que os identifique e tudo o que é marginal adquire, no caso deles, uma presença importante.

DANUBIO TORRES FIERRO *,

28 de maio de 2013 | 02h08

O que não é por acaso. Os dois escritores pertencem, embora em terras latino-americanos muito distantes (os países centro-americanos de um lado, o Uruguai do Cone Sul do outro), às gerações que chegaram depois do triunfo avassalador do boom literário de meados do século passado, quando era difícil encontrar algum lugar que já não tivesse sido colonizado, e chamar a atenção era um grande um desafio para os novos talentos. A partir de uma posição duplamente remota (geográfica e literária), ambos decidiram seguir por zonas fronteiriças, ou melhor, transnacionais, desarraigadas e deslocadas. Neste sentido o caso de Levrero é mais radical do que o de Castellanos Moya; quanto a este, a terra natal ainda é um estímulo como uma raiz ambígua, ao passo que no caso de Levrero tudo o que soa nacional ou local é minuciosamente afastado do seu caminho.

Em Castellanos Moya, que, segundo algumas fontes, tem nacionalidade salvadorenha e outras sugerem que ele é hondurenho, as marcas do exílio físico são facilmente perceptíveis. Ele viveu no México, na Europa e nos Estados Unidos. Mas nos seus textos percebemos um exílio que poderíamos chamar de metafísico. De fato, seus personagens estão, obstinadamente, fora do mundo que habitam, um mundo que lhes é próprio sem que isso implique alguma forma de segurança ou certeza. Em qualquer dessas duas variantes, o que observamos são criaturas grisalhas e desoladas nas quais explode (tanto de modo pacífico como explosivo) a raiva ou o fracasso e o ressentimento.

No conto intitulado El Pozo en el Pecho (que integra a antologia Puertos Abiertos, Fondo de Cultura Económica, México, 2011, selecionada por Sergio Ramírez), por exemplo, o protagonista é um quarentão monótono que se ilude cada vez mais com uma redenção vital que é sempre adiada, mas que nunca chega. A inquietação transparece tanto no cenário penosamente sombrio em que transcorre a ação como na aura espiritual desgraçada que se respira. Uma modesta, mas eficaz, condução dos insignificantes (e opacos) incidentes que intervêm contribui para que o conto adquira, no seu desenrolar, um clima de miséria insuportável.

Mario Levrero viveu inserido numa categoria de escritores que Ruben Darío, no século 19, deu um nome que fez escola: a dos "raros". Uma sensibilidade traumatizada, um amor pelo oblíquo e o finito e uma prosa apátrida que não se apoia no solo que a alimenta, são os aspectos dominantes de uma literatura que somente no Uruguai trouxe para suas fileiras autores como Juan Carlos Onetti, Felisberto Hernández e Armonía Sommers.

Levrero incluiu-se nessa tendência desde 1970, quando ficou conhecido com La Máquina de Pensar em Gladys, uma narrativa que se aprofunda heterodoxa num realismo insólito, um realismo que, pérfido e expandido, aposta na subversão ínfima e ao mesmo tempo hiperbólica da realidade. O tema da viagem que não leva a nenhuma parte, da carência do abrigo de uma identidade, de uma busca que se torna equivocadamente circular, urdem texturas extravagantes e quase desprovidas de contextos que iriam coordenar tudo isso.

Assim, Deixa Comigo, romance agora editado, como foi o caso, antes, de Siukville (1988), é o relato de uma viagem que no seu final chega a um no 'man's land' (terra de ninguém). Sem o espírito combativo e a verve literária de um Roberto Bolaño, do qual foi próximo e com quem se encontrou com frequência, Levrero desenvolveu - num longo itinerário nunca interrompido - uma escrita às vezes descuidada, às vezes iluminada, mas quase sempre congruente e provocadora. TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO.

* DANUBIO TORRES FIERRO É ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO URUGUAIO E DIRETOR DA EDITORA FONDO DE CULTURA ECONÓMICA NO BRASIL.

Tudo o que sabemos sobre:
Danubio Torres Fierro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.