Autora transforma Romênia no centro de sua imaginação

Laura Erber lança o livro 'Esquilos de Pavlov'

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA - ESPECIAL PARA O ESTADO,

15 de julho de 2013 | 02h09

Esquilos de Pavlov representa uma promissora estreia. Laura Erber lança mão de materiais diversos, explorando cruzamentos entre imagens e palavras, teorias e objetos, pesquisa e obra. Trata-se de gesto próximo à obra do poeta romeno Ghérasim Luca, estudado por Erber em ensaio da coleção Ciranda da Poesia (2012).

O romance dialoga com o filme Diário do Sertão (2003), por ela realizado e livremente inspirado na obra de Guimarães Rosa. A dicção de certas frases é bem roseana: "ninguém nem sabe que ele existe". Elementos visuais atravessam a narrativa, pontuada por fotografias que não pretendem ilustrar o texto, porém enriquecer sua recepção.

Esquilos de Pavlov também interage com exposição recente da autora, Musa Sem Cabeça: a Fábula do Contemporâneo (Museu de Arte Moderna, 2013). Nela, o "Sr. MAM" recebe telegrama com inúmeros registros linguísticos: do prosaico ao lírico, do metódico ao aleatório. O diálogo se torna esboço em Bénédicte Vê o Mar (2013), escrito para ser lido em tablet ou computador. No livro, casualmente aparece o nome Draguta Momolescu, anunciando o universo do romance.

O narrador, Ciprian Momolescu, encontra-se em Paris há muitos anos e escreve, como ele diz, "minha ficção de origem". Ficção que evoca o autoritarismo do regime de Nicolae Ceausescu (1918-1989). Recorde-se a abertura do romance: "O feto é uma propriedade de toda a sociedade. Dar à luz é um dever patriótico decisivo para o desenvolvimento da nação".

De fato, as mulheres romenas eram periodicamente submetidas a exames ginecológicos, a fim de evitar possíveis abortos. Porém, a precariedade das condições econômicas deveria ter estimulado medidas de controle da natalidade. Paradoxos similares dominaram o cotidiano da era Ceausescu (1965-1989). O dramaturgo Matéi Visniec fundou boa parte de seu teatro numa reflexão sobre as consequências dessa estrutura contraditória, quase esquizofrênica. Já o narrador de Esquilos de Pavlov é um paradoxo ambulante: "Da minha mãe herdei o sono, do meu pai a incapacidade de dormir".

Erber tanto alude aos desacertos do período de Ceausescu, quanto alveja impasses do conceito e, sobretudo, do circuito da arte contemporânea. O eixo do romance pode ser apreendido na frase-valise: "A maior parte das pessoas nunca teria visto arte se não conhecesse essa palavra".

Ciprian se torna um futuro artista graças a um acaso objetivo que certamente agradaria a seu pai, Spiru, cujo obscuro passado surrealista intriga o narrador. Um emprego inesperado muda seu destino: "a biblioteca pública de Bucareste me empregou como secretário e larguei a faculdade". Criativo, Ciprian joga com sistemas classificatórios, subvertendo regras de referência. Pronto: "uma curadora de Lubliana disse 'estupendo, estupendo' e foi fogo se alastrando". Os experimentos do lúdico bibliotecário forjam uma nova identidade: artista.

Então, uma viagem sem fim principia, pois Ciprian recebe incontáveis bolsas em distintos países. O sistema é exposto no capítulo "O discurso de Ulrikka Pavlov". E sem diplomacia alguma: os "artistas profissionais (...) recuperando-se de jet lags causados por seu infinito trânsito entre residências artísticas, bienais, feiras de arte, apresentações, palestras, vernissages e outros eventos sociais". No caso de Ciprian, a sátira se completa num dado biográfico: seu pai pertencia à maçonaria, e, "graças à sua tentacular rede de contatos, o mundo das artes tem sido mais generoso comigo".

Tentacular é o próprio romance, com sua miríade de alusões a protagonistas da cultura romena e a nomes icônicos da arte contemporânea. Não posso, aqui, abordar esse universo de correspondências. Levanto, porém, uma lebre: o leitor deve decifrar a referência à romancista croata Slavenka Drakulic.

Esquilos de Pavlov não se limita ao "sabor de um homem" - ou de uma cultura. Laura Erber, pelo contrário, se destaca pela ousadia com que transforma a Romênia - "entre modernismos periféricos e espelhos se refletindo" - no centro de sua imaginação.

Imaginação ficcional e teórica: o cruzamento decisivo que define seu projeto.

JOÃO CÉZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ, AUTOR DE MACHADO DE ASSIS: POR UMA POÉTICA DA EMULAÇÃO.

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