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Autora de 'Comer, Rezar, Amar', Elizabeth Gilbert lança romance que julga ser seu melhor trabalho

Escritora percorre o século 19 em obra que explora as nuances do mundo feminino

Lucia Guimarães / NOVA YORK, O Estado de S. Paulo

01 de novembro de 2013 | 22h18

O que faz uma autora depois que suas memórias vendem mais de 10 milhões de cópias em 30 países (500 mil no Brasil) e ela é vivida no cinema por Julia Roberts? “Coitada”, era um comentário que Elizabeth Gilbert ouvia depois do sucesso de Comer, Rezar, Amar. Ela diz que não adere ao canibalismo da superação obrigatória. Não se importa de saber que será lembrada por seu best-seller de 2006, embora considere A Assinatura de Todas as Coisas, lançado no País pela Alfaguara, seu melhor trabalho.

Elizabeth Gilbert começou como ficcionista em Peregrinos (1997), obra bem-recebida pela crítica, mas foi com o best-seller Comer, Rezar, Amar que se tornou mais conhecida do público. Em 2010, foi representada por Julia Roberts na adaptação cinematográfica da obra dirigida por Ryan Murphy.

Na históriam, Gilbert partia numa aventura de exploração espiritual que termina em Bali com um amor brasileiro, José Nunes. Atualmente, o casal vive numa pequena cidade de New Jersey, a 100 quilômetros de Manhattan. Lá, a escritora expôs ao Estado as motivações para criar sua personagem e de sua paixão pela literatura do século 19.

A protagonista Alma Whitaker espelha de alguma forma sua aventura de busca pessoal no livro Comer, Rezar, Amar?

Não acho que conseguiria inventar uma protagonista que não tivesse fome de algo, aspirações. Quis colocar Alma em contraponto com o movimento espiritual de Transcendentalismo no século 19. Eram ideias meio proto-hippies daquele tempo, que acabei adotando a certa altura. Emerson, Thoreau, essa turma falava de altos conceitos de busca espiritual, olhavam para o Cristianismo de outra forma. Experimentaram, por exemplo, com hipnose. Havia esse clima meio New Age no período que era diametralmente oposto ao que a empírica Alma defende. Por isso, criei um personagem para entrar em colisão com ela.

Sem revelar o final, qual é o significado de sua conclusão?

No centro da vida de Alma há dois mistérios gêmeos. Um são os mecanismos da natureza e o outro os de sua vida pessoal. Os dois mistérios começam a se entrelaçar. À medida que esclarece um, ela se debruça sobre o outro. Alma quer entender a natureza, mas quer também entender o que sente. As duas curiosidades a levam aos confins da Terra e ela consegue voltar com respostas. É uma qualidade dela que me toca.

A protagonista tem uma sexualidade que não costumamos ver representada naquele tempo.

Foi importante para mim fazer de Alma um ser humano sexual. Ela é da terra, é uma exploradora e é curiosa. Se você junta essas qualidades, não pode deixar o sexo de fora. Ela encontra um livro erótico na biblioteca do pai, durante a adolescência, e ele desperta seu fascínio sobre como funciona a sexualidade. Curiosamente, foi a parte mais difícil escrever. Eu não queria humilhar a personagem com a exploração da sexualidade nem degradá-la na imaginação do leitor Mas não ia deixar a sexualidade de lado, não ia abrir mão de explorar questões científicas que a consumiam. A tragédia de Alma é que ela é esta pessoa cheia de desejos que não atrai a atenção dos homens por causa do seu intelecto, da sua aparência, das ambições. Eu queria saber como é passar a vida cheia de desejos sem provocar desejos nos outros.

Por que quis manter a protagonista desengajada politicamente, apesar de viver um período de tanta transformação?

O século 19 foi realmente de grandes transformações. Tivemos a Revolução Industrial, o fim da escravidão, o começo da ideia dos direitos humanos, a separação entre ciência e religião, a emergência dos movimentos de mulheres e tudo isso acontece em torno de Alma. Um aspecto que me atrai nela é que ela é uma cientista, e eles geralmente não dão tanta atenção ao mundo em volta por estarem mergulhados no que estudam. Ela passa boa parte do tempo no microscópio. Sua irmã se envolve no movimento abolicionista e ela não entende o motivo. Não percebe nada do movimento pelo direito ao voto feminino. Na prática, age como uma feminista, mas não se junta a grupos porque não é política. O que encontra, de fato, é o debate sobre ciência e religião e acaba tendo seu papel nele, mas não porque planejasse. Isto faz sentido para mim porque ela estaria acompanhando o debate sobre a Teoria da Evolução.

Como escolheu o musgo, objeto da pesquisa da protagonista?

Você me perguntou por que criei a botânica mulher. Tinha que ser realista. Quando decidi que seria uma mulher, a questão era, o que ela vai estudar? Por ser mulher, por ser assistente de seu pai, por ser solteira e não ter tido liberdade para viajar na primeira metade da vida, já que está presa à casa do pai. E ele a vê como sua propriedade, ainda que de maneira afetiva, mas, de fato, uma propriedade. Eu tinha que achar um objeto de estudo viável e próximo. E também exaustivo e abundante para nunca se esgotar. Escolhi o musgo, especialmente em Filadélfia, onde ela morava e havia vegetação com muito musgo. Precisava achar algo que ela pudesse encontrar caminhando, não tomando um barco. Ela não poderia ser como um daqueles botânicos da época que iam estudar algo em Madagascar. Tinha que encontrar seu tema em casa. E o musgo é um universo miniaturizado, em que tudo o que você precisa encontrar está ali, como miniatura.

Alma Whitaker é excepcionalmente ambiciosa para uma heroína do século 19.

Desde que a Alma começou a tomar forma na minha cabeça, queria que ela tivesse uma vida rica. Mas sabia que ela não poderia conseguir tudo o que queria. Ela nunca poderia ser satisfeita no mundo em que vivia. Eu não queria escrever um livro que partisse o coração. Queria uma história de redenção. Mas nem tudo dá certo para ela. Há uma outra coisa que queria com este livro, porque sou uma leitora voraz de literatura do século 19: de maneira geral, a personagem feminina só tem dois tipos de final. Ou acaba no bom casamento como em Orgulho e Preconceito, ou sob as rodas de um trem, geralmente por causa de um erro sensual – Daisy Miller ou Anna Karenina. Um erro basta. E sinto que a realidade da vida de mulheres é mais sutil. Nas nossas vidas, a resposta não é ter encontrado o homem certo ou se arruinar. Há muito meio-termo. E essa realidade não está nas representações em romances. A maioria de nós acaba mais ou menos decepcionada, mas tendo uma vida interessante. A mulher pode não ter satisfação plena e ainda viver uma vida digna e fascinante. E chegar à conclusão de que valeu a pena.

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