Autora best-seller lança no Brasil livro sobre Iraque

Quando voltou de Cabul depois de cobrir a invasão americana no Iraque, em 2003, a jornalista norueguesa Asne Seierstad só queria sossego. ?Foram exatos 101 dias entre minha partida e minha volta a Oslo e, como estava exausta, não tinha disposição para retornar ao assunto?, conta ela. O detalhe é que Asne é autora de O Livreiro de Cabul (Record), livro que se tornou best-seller mundial ao apresentar um retrato intimista de uma família afegã com a qual ela viveu por quatro meses em 2001. ?Assim, logo fui convencida pelo meu editor dinamarquês a transformar a nova viagem em outro livro.?O resultado é 101 Dias em Bagdá (Record, 383 páginas, R$ 41), que será oficialmente lançado nesta sexta-feira, quando ela participa do Fórum de Letras de Ouro Preto (Flop), debatendo a relação entre jornalismo e literatura - ao seu lado, estarão o português Carlos Fino, que foi o primeiro jornalista do mundo a dar imagens ao vivo do começo da Guerra do Iraque, e Mônica Waldvogel. E, novamente, Asne revela-se uma especialista na cobertura, de uma forma não convencional, das experiências cotidianas vivenciadas pelas sociedades que atravessam conflitos com repercussão internacional.Durante 101 dias, período em que cobriu os momentos ocorridos antes, durante e depois da invasão americana e britânica ao Iraque, Asne procurou expor o universo do conflito além das manchetes, ou seja, retratar a penosa rotina dos iraquianos: como reagiam durante os bombardeios, suas opiniões sobre o regime deposto de Saddam Hussein, as expectativas em relação ao futuro e a censura à imprensa estrangeira. Com isso, descobriu personagens valiosos como o melancólico dono de uma livraria que, por conta da primeira invasão americana, em 1991, não dispunha de nada novo desde aquela data, frustrando fregueses fiéis como um fã de Jean Paul Sartre ou o rapaz disposto a descobrir se realmente era possível clonar humanos, como ouvira dizer.Asne conta que não seguia um plano previamente preparado em suas entrevistas. ?Na verdade, já era uma grande vitória conseguir acordar bem, especialmente depois de iniciados os ataques?, lembra ela, que conversou com o Estado em sua passagem por São Paulo, antes de rumar para Ouro Preto. ?Em seguida, decidia aleatoriamente qual direção seguir, em busca de personagens.?Asne é uma bela mulher, alta, esguia, de olhos verdes faiscantes e penetrantes. Não seria esse perfil uma desvantagem para trabalhar em um país cuja religião é criteriosa em relação à conduta das mulheres? ?Não, ao contrário, pois foi possível manter uma relação mais próxima com outras mulheres que, por causa da religião muçulmana, talvez não se sentissem à vontade para contar suas histórias a um homem?, explica Asne. ?Na verdade, meu interesse, na guerra, era descobrir tipos interessantes, independentemente do sexo.?Onipresença de Saddam Hussein incomodava Logo no início do livro, a correspondente de guerra alerta que aquela foi a mais difícil experiência profissional, pior que em Kosovo, Chechênia e Afeganistão. ?Durante a ditadura de Saddam Hussein, as pessoas temiam revelar seus pensamentos: por mais que se perguntasse, eles sempre eram precavidos com os estrangeiros?, conta. ?Além disso, a guerra era uma ameaça constante e a atmosfera vivia pesada. E era sufocante encontrar imagens de Saddam em qualquer área da cidade, uma onipresença que incomodava.?O controle de pensamentos era eficiente - Asne conta que o sofisticado aparelho de repressão atingiu todos os correspondentes e, por vezes, influía diretamente no que escreviam. ?Procurei me movimentar no cenário entre a mentira gritante e os berros sufocados e quase inaudíveis da verdade.?Uma valiosa ajuda veio da burocrata responsável pelo atendimento aos jornalistas estrangeiros, Uday al-Tay, conhecida como Aliya, que logo se tornou guia e intérprete de Asne. Ela conta que teve de demitir seu primeiro tradutor por total falta de sintonia. E, quando estava diante de seu computador, sentada do lado de fora do Ministério da Informação tentando descobrir o que fazer, uma mulher de grande porte puxou conversa. Em poucos minutos, pareciam amigas antigas. ?Eu protejo você, não importa o que acontecer?, disse Aliya. ?E, quando os americanos chegarem, uma será a protetora da outra.? Criou-se, assim, uma relação profissional, pois Aliya, apesar de representar o governo, não escondia seu espanto com a realidade criada por Saddam Hussein. Asne adiou retorno até se sentir completamente exaustaAsne contou também com a cumplicidade dos iraquianos, desde a dupla de motoristas Abbas e Amir até Kadim, funcionário do Ministério da Informação encarregado de controlar o período de permanência dos jornalistas no país - em muitos casos, o tempo máximo era de dez dias. Asne desconfia ter conquistado a confiança do burocrata, especialmente quando utilizou um interessante estratagema: como estava ali trabalhando para oito órgãos de imprensa de oito diferentes países, não seria melhor mantê-la por mais tempo que contar com oito novos jornalistas?Depois de conviver com terríveis dramas humanos, sentir a ameaça de um bombardeio e de descobrir as mazelas representadas por uma limitação provocada pelo racionamento de comida, Asne decidiu voltar. ?Fui adiando o retorno até me sentir completamente exausta?, justifica. ?Até então, consegui colecionar histórias humanas tocantes, mas chegou o momento em que a violência começou a crescer assustadoramente, com pessoas assassinadas em plena rua.?Atualmente, Asne não pensa em voltar ao Iraque, não enquanto perdurar essa violência. ?Hoje, o medo de ser raptada é muito grande?, explica. ?Nessa função, devo seguir minha intuição que, agora, diz não.? Como correspondente de guerra, ela aprendeu que os riscos têm de ser calculados na conquista de uma boa história - com a escalada da violência no Iraque, ser estrangeira significa ser um bom alvo. E a boa história só existe para o mundo se seu narrador estiver vivo e são.

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