Autor vê diferença entre cão da cidade e da província

Apesar de viver em Paris, o autor do livro Da Dificuldade de Ser Cão nasceu e cresceu na província. Passou a juventude em Pau, no sul da França, perto da fronteira com a Espanha. É de se perguntar, portanto, se é possível estabelecer uma diferenciação entre o cão de província e o da cidade grande."Durante minha juventude, havia poucos carros, os cães eram mais livres, o campo estava próximo", recorda-se Roger Grenier. "Mas os cachorros se adaptam muito bem a Paris; o meu detestava ir ao campo e preferia flanar pelas sarjetas do bairro", argumenta. "Talvez seja melhor fazer uma distinção entre os cães do norte da França e os do baixo Mediterrâneo: perto do mar, eles são menos bem-tratados, considerados como objetos meramente utilitários, para a caça e a guarda."Um livro, tão simpático aos animais ("com poucas exceções, os literatos servem-se dos animais mais do que servem a eles", escreve Grenier; "na relação homem-animal, é sempre o homem o devedor") assim só poderia ser escrito por um francês? O autor responde que não. "Costuma-se dizer que os franceses gostam particularmente dos cachorros, que eles são milhões na França; mas os ingleses também, os americanos também", responde.Entretanto, com um certo orgulho pátrio, complementa: "Talvez os franceses tenham uma maior tendência para falar com seus cachorros como se fossem um criança, uma pessoa." Modéstia de Grenier. No Brasil parece piada, mas em Paris é coisa séria: muito restaurante proíbe a entrada de crianças, mas não fazem objeção à presença de cães.Antes que se atribua qualquer influência de seus cães na escolha pela literatura, Grenier diz que começou a ser escritor lendo. "Sempre gostei dos cachorros e tive alguns deles: mas eles não aparecem nos meus livros de uma forma excessiva; de tempos em tempos, um se convida para um romance, uma novela, e é sempre bem-vindo."Uma expressão popular afirma que os cachorros são "animais para sofrer", porque, como vivem menos que os homens, vão nos infligir necessariamente o sentimento da perda. Seriam os cães todos existencialistas? O amigo de Camus, começa citando Heidegger, para quem o animal é um "pobre em mundo". Volta a Sartre - "o cão sente-se viver, ele se entedia" - e termina com Antoine Rivarol, que, no século 18, escreveu: "Nós o tiramos da sua ordem, sem transportá-los para a nossa. Daí a sua angústia, que nós podemos qualificar de existencial."

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