Autor também se cansa do próprio texto

Eva Furnari surpreendeu seus colegas escritores ao decidir não reeditar alguns de seus livros, no processo de republicação pela Moderna: dos 60 títulos que compõem sua obra, pelo menos 15 não voltarão às prateleiras das livrarias. "São histórias mais antigas, que julgo desatualizadas", justificou a autora, cujo estilo se caracteriza por narrar tramas sobre assuntos complexos de uma forma simples, buscando a comunicação imediata com o leitor jovem.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

"Quando ela me contou isso, dizendo que estava cansada daqueles livros, fiquei boquiaberto", conta um sorridente Pedro Bandeira. "No meu caso, não deixo o tempo passar - prefiro comunicar à editora que certa obra não deve ser mais relançada pouco depois de ela ser publicada. Para isso, sigo certas normas pessoais que é descobrir se a trama não agradou ou não é adequada para o público."

Bandeira lembra de ter enfrentado o problema apenas uma vez. Em 2002, quando lançou O Vírus Final (FTD), percebeu que se enganara quanto à faixa etária. "Não era dirigido ao público juvenil porque trata de um assunto adulto: a influência das mudanças tecnológicas no futuro das pessoas. Por isso, tirei-o da lista para os jovens."

A preocupação com o direcionamento das obras é constante entre os autores. No trabalho de reformulação que vem acontecendo desde o ano passado, Eva, ao lado de profissionais da editora, criou selos de acordo com a faixa etária. Assim, um dos títulos inéditos recém-lançados, Trudi e Kiki, vai se encaixar na lista de livros ideais para a fase de aprendizagem da leitura. "Uma parte da literatura infanto-juvenil tornou-se utilitária, ou seja, auxilia os professores no processo educacional", comenta. "Na verdade, até a não considerada utilitária é usada da mesma forma, pois trata de questões humanas nem sempre abordadas na escola."

O tema é compartilhado pelos demais autores. "De acordo com a idade, cada leitor tem o próprio ponto de vista e é sob este enfoque que o assunto deve ser tratado pelo escritor se ele quiser ser aceito por determinado público", acredita Bandeira, favorável à inclusão de temas delicados como suicídio, separação dos pais, irmãos separados ao nascer. "A ideia do suicídio é normal em certos momentos da adolescência. Eu mesmo já o abordei em A Marca de Uma Lágrima, sob a aura romântica de uma adolescente apaixonada e o sucesso foi tremendo."

O ensino foi um dos detalhes incluídos no contrato assinado entre Ana Maria Machado e a editora Objetiva. "Faremos uma seleta de sua obra para a organização de um livro que vai figurar na coleção Para Ler na Escola", conta o editor Roberto Feith. "É um selo que já conta com nomes consagrados, como João Ubaldo Ribeiro e João Cabral de Melo Neto." Segundo ele, há intenção de trazer mais títulos da autora. "Mas são muitos e estão com diversas editoras."

A Objetiva vai lançar, a partir de março, 10 livros juvenis da escritora, dos quais um inédito. Já a obra adulta, sob o selo Alfaguara, terá nove obras, sendo também uma inédita. Premiada, ela é conhecida por tratar com delicadeza assuntos difíceis. Como as relações familiares, que marcam, por exemplo, Bisa Bia Bisa Bel, sobre a menina que, ao encontrar a foto da bisavó, inicia um processo de descoberta inesperada.

PRINCIPAIS LIVROS

Bento-que-Bento-É-o-Frade (1977)

Bisa Bia, Bisa Bel (1982)

O Menino Que Espiava pra Dentro (1984)

Um Natal Que Não Termina (1993)

Abrindo Caminho (2003)

Números de Ana Maria

40 anos de carreira somam mais de 100 livros publicados no Brasil e em mais de 18 países,chegando a mais de 18 milhões de exemplares vendidos

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