Autor quer limpar imagem do guarda-costa

José Louzeiro decidiu fazer mais uma reportagem do que um romance, ao contar a vida de Gregório Fortunato, o que o desobrigou de adotar um estilo apurado para escrever na forma direta, jornalística. Se esvazia a emoção, a atitude permite ao autor reconstituir com detalhes momentos históricos ainda divididos em diversas versões e, em especial, destituí-lo da imagem de vilão para condenar a família Vargas.A leitura de O Anjo da Fidelidade é completamente marcada pela simpatia de Louzeiro com seu personagem, especialmente no momento mais importante do ponto de vista histórico: a tentativa de assassinato do jornalista Carlos Lacerda, que acabou vitimando o major Vaz. "Gregório sempre foi contrário ao ato, mas só foi obrigado a aceitar por pressão do irmão caçula de Getúlio Vargas, Benjamin", comenta o escritor, que acredita ter descoberto não um monstro, mas um homem cuja fidelidade foi explorada pelos verdadeiros vilões da história: a família Vargas. "Não fosse a imposição de Beijo, que depois do insucesso não o auxiliou, ele não teria participado, ainda que passivamente."O autor preocupa-se, ao relembrar cada fato, em desmistificar a imagem negativa de Gregório Fortunato. A ele é atribuído o que de pior havia no governo de Getúlio Vargas, quando era conhecido pelo sinistro apelido de "Anjo Negro". Ele foi o bode expiatório da família, à qual serviu como testa-de-ferro para encobrir todas as falcatruas. "E acabou pagando sozinho por todos os crimes."O golpe final na fidelidade foi dado por "Beijo", ao forçá-lo a participar do atentado a Lacerda. "De início, ele achou a idéia tão absurda que riu na cara do "Beijo". Este o ameaçou de demissão se não se engajasse no complô. Gregório também não acreditou quando lhe contaram que o pistoleiro escolhido seria Alcino João, um despreparado, segundo sua avaliação."O assassinato, sabemos, falhou e Fortunato foi preso logo após o suicídio de Vargas. Louzeiro faz questão de lembrar que, mesmo acuado, o guardião não entregou ninguém da família presidencial, mesmo depois de torturado. Só titubeou quando Lacerda, durante o julgamento, mostrou-lhe uma edição forjada de seu jornal, Tribuna do Povo, cuja manchete, falsa, dizia que todos o haviam abandonado e fugido para o exterior.Todos estavam contra Gregório. Seu advogado, Romeiro Neto, só o quis ver uma vez e, como relata Louzeiro, saiu dizendo: "Não é que esse negro até parece gente?" Durante o julgamento, a sala lotou com militares à paisana, que tentavam forçar, com seus gritos, a condenação de Gregório. Todos os outros saíram ilesos - Fortunato pegou 25 anos de cadeia.Para garantir mais veracidade aos seus fatos, Louzeiro contou com o testemunho do filho de Fortunato, Abel, atualmente morando e trabalhando em São Luís, no Maranhão. Abel reforça a servidão à que se submeteu o pai, revelando que em apenas uma festa de Natal a família teve a sua companhia. O próprio estado de miséria em que ficaram os parentes revela, segundo o jornalista, a idoneidade do guardião dos Vargas. "Afinal, onde estaria esse dinheiro? Toda a sua família morreu miserável e as poucas terras que tinham não passavam de imprestáveis alqueires de pouco valor", comenta.A insistência em isentar Gregório Fortunato de uma imagem terrível acompanha o relato do livro até suas linhas finais, quando Louzeiro detalha seu assassinato, praticado por Feliciano Dias, também detento no Presídio Frei Caneca. Surpreendido por uma faca enfiada no pescoço, Fortunato correu até cair e resgatar, finalmente, o que lhe devia Getúlio, nas palavras finais do jornalista: "Saiu da vida para entrar na História."

Agencia Estado,

11 de dezembro de 2000 | 20h36

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