Mike Segar/Reuters
Mike Segar/Reuters

Autor investiga submundo da elite universitária em 'Sua Face Ilegal'

Australiano Peter Carey fala ao 'Estado' sobre o romance lançado pela editora Record no Brasil

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo,

06 de agosto de 2012 | 09h49

Criado pela avó, Che Selkirk sempre procurou conhecer pessoalmente os pais, Susan e David. Mas, o que seria um problema prosaico ganha mais proporção pelo fato deles terem sido, no final dos anos 1960, ativistas radicais que fugiram da universidade de Harvard e também da polícia. Protegido pela avó, que evitava até seu contato com as notícias divulgadas pela televisão, Che jamais soube desses detalhes. Mas, ao conhecer Dial, mulher que acredita ser sua mãe, o rapaz foge com ela e inicia uma misteriosa jornada pelos Estados Unidos.

O australiano Peter Carey viveu em uma comunidade hippie como a que descreve no romance Sua Face Ilegal, lançado pela Record, mas isso foi apenas um ponto de partida para sua principal intenção: ao cair na estrada, Che e Dial iniciam um decisivo processo de aproximação. “As relações humanas é que me interessam”, diz Carey ao Estado, na seguinte entrevista feita por e-mail.

Qual foi seu propósito ao escrever Sua Face Ilegal? Como começou a escrever o livro?

Muitos anos atrás, eu vivia em uma comunidade hippie na floresta tropical de Queensland, um lugar muito parecido àquele em que Dial e Che terminam. Embora eles (como americanos citadinos que são) odeiem o lugar no início, eu sempre o amei. Foi um dos grandes lugares. Enquanto eu estava vivendo ali, chegou um americano que foi aceito sem perguntas por todos nós. Mais tarde, ficou-se sabendo que ele era um fugitivo do FBI, a polícia federal americana - procurado por conspiração para importar cocaína. Descobrimos isso tudo numa invasão dramática da polícia não muito diferente da descrita no romance. Foi um período particularmente cômico de minha vida. O que ficou na minha memória para sempre é que nosso Amigo Americano imaginou que tinha vindo para os confins mais remotos da Terra. Foi um ledo engano.

Como assim?

Quando ele plantou maconha em volta da sua cabana, não havia lugar mais perigoso para fazê-lo. A polícia fazia visitas regulares. Como Dial, que acha que sumiu do mapa, ele havia escolhido para viver na central de polícia. Isso estava associado a toda sorte de outros sentimentos e ideias: americano e Austrália. Nós sabendo tudo sobre eles, mesmo que eles não saibam tudo sobre nós, apesar de nosso governo afoito ter enviado nossos jovens para morrer em sua guerra no Vietnã. E, claro, eu não queria escrever um romance sobre um traficante de drogas. Tinha em mente outras razões, mais diretamente políticas, para americanos serem fugitivos e descobri nos anos de protesto contra a guerra no Vietnã, SDS (Estudantes por uma Sociedade Democrática), os weathermen (organização de esquerda radical originária da SDS), etc.

Como era isso?

Era um ambiente político com o qual eu estava muito familiarizado (como estava com a comunidade hippie). Minha experiência pessoal era na Austrália. Entretanto, eu estava muito familiarizado com o movimento americano contra a guerra e sempre me interessara pelo fato de que boa parte da liderança da SDS viera de Harvard e, portanto, paradoxalmente, da classe dirigente. Isso não constitui exatamente um “ideia para um romance”, mas apresentava exatamente o que eu queria: um local de investigação, um mundo pelo qual eu poderia me interessar em inventar e explorar dia após dia por dois anos.

O que inspirou sua comunidade hippie ficcional em Queensland?

Acho que já respondi a isso acima. Mas há mais uma coisa que gostaria de dizer. Assim como, em minha vida pessoal, adorei viver naquele vale, naquelas cabanas, eu também sabia que gostaria de viver ali em minha imaginação. Estou em Nova York. Minha janela dá para a Broadway. Minha cabeça poderia estar cheia de sirenes e táxis buzinando, mas passei dois anos escrevendo Sua Face Ilegal vivendo na floresta tropical, extasiado com a vividez de minha memória visual, exultante de ver o tordo cintilante no chão da floresta.

É certo dizer que seu romance é ambientado no passado uma vez que sugere uma filosofia sobre nossa preocupação política presente com terrorismo?

Posso ser lido dessa maneira, mas não escrevi com essa intenção. Estava pensando no centro americano e do pouco que ele sabia das vidas nas quais estava interferindo. Eu não tinha críticas ao radicalismo dos anos 60, mas era crítico daqueles indivíduos com frequência privilegiados que, estando despreparados para criar uma organização fora do câmpus de Harvard, se convenceram de que a violência seria um substituto eficaz para a obra de organizar. Claro, como diz a canção, há um tempo para a violência. Esse não foi um deles. Aqueles atos de violência pareceram pirraças para mim.

Como em muitos romances seus, amor verdadeiro e artifício visual se tornam as duas forças responsáveis por fazer as narrativas avançarem. Trata-se da busca de uma verdade que não é tão óbvia como se poderia pensar? Trata-se da maneira como o amor cruza com nossa vida?

Fico contente de ler sua observação sobre amor verdadeiro e artifício visual. Isso ainda não havia me ocorrido. Eu realmente não havia planejado uma história de amor quando comecei Sua Face Ilegal, mas afinal, como poderia escrever ou viver sem ela?

Algumas pessoas mencionaram um viés satírico no livro. O senhor concorda?

Não.

O senhor disse certa vez: “Escrever é uma ocupação estranha para uma personalidade tão ansiosa, a única coisa que pode me deixar feliz é assumir riscos.” Então, qual foi o risco de escrever este livro?

Terminá-lo.

Sua Face Ilegal, Roubo - Uma História de Amor, Minha Vida - Uma Farsa. É mera coincidência que três de seus recentes romances estejam centrados no tema da impostura?

Eu devia ser bom em responder a essa pergunta. Já me perguntaram tantas vezes e não consigo encontrar uma resposta com menos de 10 mil palavras. A resposta envolveria questões de colonialismo, de poder dos centros metropolitanos, de ódio da periferia, de alegria da invenção. Quando criança, eu me lembro da exultação que sentíamos com uma gangue de golpistas australianos que havia feito um estrago em Londres.

Após 22 anos em Nova York, o senhor ainda escreve mais sobre a Austrália que sobre seu lar adotivo. Ela nunca o deixa?

Quem se livra de sua infância? Quem consegue deixar de lado 50 anos de vida? Quem já desejou fazê-lo? Nova York é uma cidade de pessoas com o coração em dois lugares ao mesmo tempo. Eu me sinto confortável entre elas.

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