Divulgação
Divulgação
Imagem Lúcia Guimarães
Colunista
Lúcia Guimarães
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Autor inglês A. C. Grayling troca santos e parábolas por artistas e filósofos

Escritor diz que não pretendia criticar religiões, mas acrescentar elementos humanistas ao debate

Lúcia Guimarães, Nova York - O Estado de S. Paulo

07 Fevereiro 2014 | 20h16

Uma Bíblia sem Deus? Isto mesmo. Depois de anos de um pequeno boom editorial do ateísmo, com livros como Deus Não É Grande, de Christopher Hitchens, um filósofo britânico lançou um livro inspirado na Bíblia – mas na sua forma e não no conteúdo.

O Bom Livro, que acaba de sair no Brasil, é uma bíblia humanista que o autor oferece como alternativa à Bíblia cristã. Ao longo de 30 anos, o acadêmico que hoje é Mestre do New College of Humanities, em Oxford, reuniu trechos contidos em 2.500 anos de literatura, filosofia e ciência do Oriente e do Ocidente. O Bom Livro é apresentado em versos e organizado em 12 livros com títulos como Gênesis e Lamentações. Mas os textos são de autores como Confúcio, Heródoto, Aristóteles, Montaigne e Bacon.

Grayling acredita que a história do mundo seria outra se o pensamento científico e filosófico secular tivesse influenciado os autores da Bíblia. Embora o filósofo britânico tenha querido se inserir no debate sobre o ateísmo ele diz que O Bom Livro não é um ataque à religião e sim uma contribuição, uma espécie de terceira via humanista para o debate.

Ele vê o atentado às Torres Gêmeas no 11 de setembro de 2001, em Nova York, como um marco para o reexame da religião. “Até então”, diz, “a agenda religiosa ainda era encarada com certa deferência”. “O 11 de setembro mudou isso mas veja que é ainda muito cedo. Os cristãos estão acostumados a se submeter a alguma perseguição”, argumenta. “Mas a tolerância de islâmicos para a dissidência é bem menor.”

O senhor diz que começou a escrever o livro há 30 anos. Qual foi a motivação inicial?

Eu estudava para o doutorado em Oxford e comecei a refletir sobre perspectivas éticas diversas. E me perguntei se a história do mundo teria sido diferente se os autores da Bíblia tivessem mergulhado na escrita secular, buscado inspiração em poetas, escritores, figuras que tinham uma compreensão melhor da condição humana. Então comecei a colecionar material não religioso, textos que seriam reunidos como foi reunida a Bíblia.

Críticos que admiram o livro questionam a decisão de fazer o paralelo com a Bíblia. Não seria melhor ter oferecido um livro sem a comparação?

A Bíblia é organizada e escrita de maneira bastante acessível. Você pode abrir aqui e ali, recorrer ao volume quando quiser e encontrar inspiração. Considero a organização da Bíblia um bom modelo. Uma primeira preocupação minha foi tornar o livro acessível. A segunda foi mostrar que a sabedoria de filósofos, historiadores e poetas era maior do que a de profetas religiosos.

Qual a importância do fato de que o senhor foi criado numa família sem religião?

Sim, fui criado sem acreditar em Deus. Eu encontrei a religião na escola, comecei a observar as crenças diferentes e me causou alguma estranheza. Havia esta ideia de que não haveria “salvação” a não ser que fosse cristão, judeu, hindu. Eu me dediquei a ler a fundo livros sobre diferentes tradições religiosas e percebi que havia restrições assustadoras. Mas devo dizer que aprecio a grande beleza poética de passagens desses livros. Infelizmente, eles não ajudaram muito o progresso humano.

O material foi colecionado ao longo de três décadas mas o livro saiu logo após a explosão do novo ateísmo, de autores como Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Sam Harris.

Uma das minhas motivações foi publicar a tempo de fazer parte neste debate. Queria argumentar que, na discussão sobre acreditar ou não em Deus, não prestamos atenção na grande alternativa que é o Humanismo. Quando o debate esquentou, três questões foram separadas. Primeiro, a metafísica, sobre a existência do divino. Depois a questão da relevância do secularismo. E, por fim, o que me parece mais importante, a questão de como nos comportamos e conduzimos nossa vida moral. Não existe o “tamanho único” como resposta. O Humanismo vem de uma tradição, desde Aristóteles e Sócrates, em que nós devemos escolher caminhos compatíveis com nosso potencial. Pode-se viver a “boa vida” de várias maneiras.

Na última década, os Estados Unidos tomaram a liderança, no mundo desenvolvido, de uma tendência cultural que muitos consideram obscurantista. Cito, como exemplo o fato de que o ensino da Teoria da Evolução foi prejudicado em favor do ensino religioso sobre a criação do mundo, nas escolas.

Sim, mas chamo atenção para outro fato que explica esta radicalização. Estima-se que a direita evangélica nos Estados Unidos tenha 60 milhões de pessoas e a maioria delas considera que detém o monopólio da verdade. Mas a população que não declara vínculo religioso é cada vez maior, entre os americanos, especialmente os que têm menos de 35 anos. Então, acredito que há uma minoria vociferando e se debatendo sob pressão. Acredito, também, que vai haver um retrocesso para o fundamentalismo religioso no mundo. Veja que os fundamentalistas islâmicos estão sobretudo se matando uns aos outros. A rivalidade, especialmente entre xiitas e sunitas, que ficou quieta durante séculos, explodiu. É um mundo que está ruindo sob a pressão da globalização. Quando a cultura visual, o cinema, por exemplo, chega a uma comunidade que não está acostumada a questionar seus valores, o desconforto é enorme.

O senhor começou a escrever o livro tendo um leitor em mente? O quanto o seu leitor mudou ao longo dos últimos 30 anos?

Bem, enquanto colecionava o material, fui me inspirando para escrever outros livros e entender quem seria o leitor. Destaco que o livro que lancei em seguida, The God Argument, que lida com questões de deificação e é uma espécie de complemento. Como viajei muito e falei em público sobre os dois volumes, passei a compreender melhor os problemas que mobilizavam o público. Notei que, à medida que a religião perde espaço, há uma grande busca, especialmente entre os que têm mais educação, por recursos que orientem as escolhas de vida. Vejo nesta busca parte da explicação para o sucesso de meus amigos, como Richard Dawkins e Christopher Hitchens. Porque muitos destes leitores vivem entre pessoas que têm fé religiosa e encontraram nos autores ateus alguém que compreendeu seus dilemas. Outra explicação que me ocorreu ao participar de um seminário em Austin, no Texas: a comunidade não religiosa aprendeu com o movimento gay. Os gays americanos bradaram “sou gay e tenho orgulho disso”. Pense nas dificuldades tradicionais do ateu. Se você é um encanador numa cidade sulista americana, ninguém quer contratar seu serviço! E os ateus americanos perceberam que quebrar o isolamento seria a chave da aceitação.

O quanto o colapso econômico do final da década passada, nos Estados Unidos e na Europa, e a alienação provocada pelo desemprego em massa endossam um livro como o seu?

Durante décadas, o debate sobre a moralidade da organização social foi enfraquecido, o lucro endeusado. Mas, ainda que a ideia do socialismo como modelo econômico tenha sido desbancada, pelo menos na Europa, a ideia da justiça social nunca morreu. Quando os sistemas financeiros entraram em colapso, o pêndulo voltou a favorecer essa ideia. Mesmo assim, entre meus alunos, ainda vejo uma erosão do interesse por Humanidades, uma atração excessiva por profissões ligadas a negócios. Quando pais de estudantes vêm me dizer que querem seus filhos com diplomas que favoreçam o emprego a curto prazo eu respondo: a educação não é para um só emprego, é para a vida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.